'A Serbian Film' com limites

'A Serbian Film' com limites

Após ser proibido e levantar protestos e discussões sobre a censura no Brasil, longa estreia amanhã em apenas uma sala: em Maceió

Flavia Guerra,

28 de setembro de 2011 | 22h00

Exatos dois meses depois de ter causado polêmicas, discussões, protestos pró e contra, ser proibido no Rio de Janeiro, entre outros imbróglios, A Serbian Film - Terror sem Limites, finalmente estreia comercialmente no Brasil. Em Maceió. “Por mais improvável que pareça, foi a única cidade que realmente confirmou o interesse depois de toda a confusão gerada com a proibição do filme no Rio”, conta Raffaele Petrini, distribuidor do filme no País.

Para Petrini, a estreia tem sabor de batalha ganha, já que o filme enfrentou uma maratona para ter não só sua classificação indicativa (de 18 anos, obviamente) fornecida como também para não ser proibido em todo o Brasil. Ao mesmo tempo, a guerra ainda não acabou. Afinal, das iniciais 35 salas previstas para exibir o filme em julho, quando o filme ainda não havia sido proibido pela Justiça do Rio, ter apenas uma de fato confirmada soa, no mínimo, irônico. “Interesse existe. Todo dia recebo algum e-mail perguntando sobre a estreia. No entanto, não tenho boas notícias ao público do restante do Brasil. Por enquanto, os exibidores não se interessaram”, informa Petrini, que ainda negocia com o Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e com uma sala de Vitória.

E em São Paulo? “Nada. Queríamos fazer uma sessão-debate - é na discussão que o filme se completa -, mas todos os exibidores de salas mais cult estão bem reticentes. Dizem que querem exibir, mas que a agenda está cheia etc”, completa o distribuidor italiano que antes da proibição chegou a ter uma grande cadeia de cinemas interessada em exibir o filme em São Paulo.

Para Petrini, as reticências têm sabor de ‘medo’. “E não é medo do conteúdo do filme, mas sim de associar sua marca à polêmica da pedofilia com que o filme foi tachado. Como a grande maioria dos cinemas de arte de São Paulo, e do Brasil, tem patrocínio, imagino que os exibidores estejam receosos de terem problemas com patrocinadores.”

Antes de refazer a trajetória de A Serbian Film, vale relembrar do que trata: narra a história de um ator pornô em fim de carreira que concorda em participar de um “filme de arte”, mas acaba obrigado a realizar um longa com abuso infantil e necrofilia. Nos dois últimos meses, a produção divulgou imagens que provam que o menino violado é, na verdade, um boneco. “É claro que há a sugestão de pedofilia, mas não há algo de fato, muito menos uma apologia. Quem assistiu, sabe que é uma metáfora política contra as barbaridades do mundo de hoje, contra os horrores da guerra que assolam não só os Bálcãs, mas tantos outros povos do mundo”, argumenta o distribuidor. “É um filme sobre os medos que se materializam em uma família que vê o pai descendo ao fundo do poço, com horríveis consequências. É para chocar, com conteúdo político, mas é um produto de entretenimento, obra de ficção com posição clara contra a pedofilia e contra outras barbaridades.”

Em julho, o longa, que integrava o RioFan (festival de cinema fantástico), teve sua exibição proibida no Cine Odeon, no centro do Rio. O filme, aliás, já havia tido uma primeira sessão no festival. Mas após a notícia de que “continha pedofilia”, a Caixa Econômica Federal, patrocinadora e anfitriã do evento, vetou sua exibição. E a cópia em 35 mm foi apreendida após o partido político DEM, por meio de uma liminar assinada pela juíza Jatahy Nygaard, da 1.ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso do Rio de Janeiro, pedir não só a proibição como também a venda de ingressos do filme, sob multa de R$ 100 mil diária em caso de descumprimento. A ação, que tem como prerrogativa a crença de que o filme faz apologia à pedofilia, continua em trâmite.

Na época, A Serbian Film já havia sido exibido em dois festivais no Brasil: no Fantaspoa, em Porto Alegre, e no Festival Lume de Cinema, em São Luís, sem que provocasse qualquer comoção. A proibição no Rio foi suficiente para desencadear uma dezena de protestos de fãs, profissionais da área de cinema e da classe artística contra o que se chamou de censura. Não era necessariamente pelo valor artístico da obra, que, como bem diz Petrini, “tem uma narrativa muito simples e chega a ser maniqueísta dividido o bem contra o mal”. “Quem pediu o veto ao filme chegou a dizer que ele foi proibido em países cuja democracia é muito mais avançada do que a brasileira. Como se mede isso? Que parâmetros foram usados? Sabe-se como a censura começa, mas nunca como acaba.”

Mesmo diante da proibição no Rio, o distribuidor e o público estavam confiantes que em 26 de agosto o filme estrearia nas demais salas do Brasil. Engano. O processo de classificação indicativa, que havia sido solicitada ao Ministério da Justiça em junho, antes mesmo do RioFan, só terminou em início de agosto, após ter sido interrompido quando o procurador Fernando Martins, de Minas Gerais, entrou com uma ação pedindo a interrupção. “A decisão saiu. O filme pode estrear, mas Minas agora quer que a classificação de 18 anos seja revogada. Isso é impossível”, disse Petrini.

A guerra de A Serbian Film ainda não terminou. E a batalha de Petrini para que o filme estreie em outras capitais segue. “Pelo menos, em DVD, com a versão integral e com extras, a ‘exibição’ está garantida.”

TRAJETÓRIA

Pode

Foi exibido em festivais nos EUA e Canadá, onde tem estreado em circuito de arte. Ganhou o Fantasporto, em Portugal. Foi exibido no Mercado do Festival de Cannes, em maio, passou pela classificação e deve ser distribuído em DVDs no fim do ano.

Pode, ma non troppo

No Reino Unido, sofreu 49 cortes (totalizando 4 dos 105 minutos) antes de ser liberado. Na Alemanha, o laboratório que realizou cópias da película destruiu o material após reduzi-lo a 89 minutos. O diretor sofre processo por exibir pornografia infantil.

Não pode

Na Espanha, foi banido por “ameaça à liberdade sexual”. Foi proibido na Noruega após dois meses por causa da “violação criminal sobre a representação sexual de menores e violência extrema”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.