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Photo by Robyn Beck / AFP
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A semana em que a velha Hollywood, enfim, realmente morreu

Os novos líderes do setor não vêm da velha Hollywood que tem visto seu clã e valores caírem em descrédito

Ben Smith, The New York Times

18 de agosto de 2020 | 11h00

Por décadas, a melhor coisa sobre ser um executivo de Hollywood era a forma como você era demitido. Os executivos dos estúdios eram afastados de uma maneira gentil, até amável, tendo meses para formularem sua própria narrativa a respeito e encontrarem um novo trabalho, ou serem mesmo promovidos. Quando Amy Pascal foi demitida da Sony Pictures, em 2015, ela recebeu um pacote de indenização e um acordo de produção num valor divulgado de US$ 40 milhões.

Claro que isto foi antes de os serviços de streaming surgirem, mudando tudo drasticamente com uma lógica implacável e uma eficiência sem compaixão.

Tudo isto nunca ficou tão claro quanto em 7 de agosto, quando a WarnerMedia abruptamente eliminou os cargos de centenas de empregados, esvaziando a sala dos executivos num estúdio que outrora era um dos grandes, que criou Hollywood, e hoje é uma subsidiária da AT&T. Numa série de videoconferências rápidas, os executivos que imaginavam ser as eminências do estúdio foram lembrados de que eles trabalham - ou melhor, trabalhavam, numa divisão de vídeo de uma empresa de telefonia. O chairman da WarnerMedia Entertainment, Bob Greenblatt, soube da sua demissão na manhã do dia em que a notícia foi divulgada. Jeffrey Schlesinger, veterano de 37 anos da companhia, responsável por operações de licenciamento internacionais, queixou-se para amigos de que foi avisado uma hora antes, segundo duas pessoas me disseram.



“Estamos nas cenas finais e brutais de Hollywood, como afirmam as pessoas, à medida que o investimento e a infraestrutura no streaming assumem a primazia”, disse Janice Min, antiga copresidente da Hollywood Reporter, que foi durante um curto período executiva na plataforma de streaming Quibi. “Cortesias e um novo acordo de produção para os que estão no topo, e, mais importante, a enorme responsabilidade financeira de lidar com uma burocracia que parece estar desaparecendo. É como um clube, já fechado por uma pandemia, sem obrigações de sustentar todos os seus membros”.

O drama na Warner marcou um momento decisivo, em parte por causa do seu enorme porte e do perfil das icônicas companhias sob sua marca: Warner Bros, HBO e CNN entre elas. E ocorre no momento em que o poder de Hollywood está visivelmente ausente do interesse nacional. Washington está consumido pelo TikTok, aplicativo chinês de compartilhamento de vídeos que é a mais bem sucedida plataforma de conteúdo do mundo. TikTok tem tido sucesso ao passo que Quibi, a alternativa premium de Hollywood para conteúdo gerado pelo usuário, luta para encontrar um público. A política da Califórnia que acabou de ser nomeada para a vice-presidência vem de San Francisco e não alardeia particularmente seus vínculos com Hollywood (embora estivesse em toda parte no Instagram dos insiders de Hollywood na semana passada).

As mudanças na área corporativa da WarnerMedia e NBCUniversal nos últimos dias sinalizam que a transformação tecnológica sobre a qual você vem lendo há anos finalmente se concretiza, acelerada pela pandemia. Os novos líderes do setor querem conversar sobre produtos digitais e marketing para angariar assinaturas. Os perfis mais interessantes dos executivos do entretenimento são, literalmente, obituários, especialmente o catálogo de vitórias e fraquezas que marcaram a carreira do fundador da Viacom, Sumner Redstone. (Como muito neste setor, Redstone, que morreu na semana passada aos 97 anos de idade, manteve-se no cargo mais tempo do que era esperado. Antigos funcionários da Viacom lembraram que há mais de seis anos o então diretor executivo Philippe Dauman pediu a seus assessores para redigirem um panegírico comovente para Redstone, que tinha 90 anos na época, e criarem um website em sua memória. Mas Dauman foi demitido há quatro anos e não há planos para publicar um panegírico e o website dedicado a Redstone está esquecido em alguma gaveta digital).

Muito do que vem ocorrendo agora em Hollywood também nos dá a sensação de uma morte há muito tempo prevista. Na WarnerMedia a demissão dos executivos aconteceu depois do fiasco da companhia no lançamento de um serviço de streaming cujo nome - HBO Go, HBO Now ou HBO Max - ninguém consegue entender. O serviço até agora se distinguia pelas suas tentativas vigorosas e mal sucedidas de aumentar o número de quatro milhões de pessoas que na verdade usavam o serviço para 30 milhões.

“É um grande acerto de contas”, disse Kevin Reilly, alto executivo que abruptamente foi despedido, ao Hollywood Reporter.

Os novos líderes do setor não vêm da velha Hollywood que tem visto seu clã e valores caírem em descrédito. O novo diretor executivo da WarnerMedia, Jason Kilar, passou vários anos de carreira atando como vice-presidente sênior do departamento de software de aplicativo para o mundo todo na Amazon, conhecida por sua cultura corporativa nefasta. Ele dirigiu o Hulu, e mais tarde deixou a empresa depois de uma disputa com os proprietários de mídia que a geriam. Na WarnerMedia promoveu uma executiva que não fez carreira dentro do clube de Hollywood, Ann Sarnoff, que dirige sua divisão de conteúdo.

Muitos dos novos líderes são admiradores da cultura da Netflix, uma companhia determinada e nada sentimental: os executivos comem na cafeteria e têm uma filosofia corporativa segundo a qual, com base numa apresentação admirada, empregados são como atletas. Os gerentes devem sempre estar em busca de negócios e mesmo alguém com alto desempenho pode ser despedido se uma outra pessoa melhor aparecer. (A própria executiva de recursos humanos que criou a apresentação junto com o diretor Reed Hastings, acabou sendo demitida).

Kilar, da WarnerMedia, disse-me em um e-mail que os cortes e reorganizações que promoveu têm por fim tirar a empresa “de um modo de pensar atacadista para um varejista”, ou seja, sair dos acordos com criadores de sucesso do velho estúdio e trabalhar com os distribuidores com vistas a um foco tecnológico em interfaces de streaming fáceis para o usuário acessar e na retenção dos assinantes.

“Esta é a diferença entre as pessoas que operavam com cinema e as pessoas que hoje estão nas operações de conteúdo”, disse Terry Press, ex-presidente da CBS Filmes, cuja divisão foi eliminada numa fusão com a Viacom no início deste ano.

A mudança cultural do setor também vem eliminando os feudos. Um dia antes das demissões na Warner, a NBCUniversal forçou a saída do chairman da sua divisão de entretenimento e anunciou sua substituição. Mas em vez disto a companhia cortou as funções executivas e fundiu a maior parte dos canais considerados suas joias da coroa - como Syfy e NBC. Do mesmo modo a WarnerMedia juntou a HBO com seus canais de cabo TBS e TNT e seu novo serviço de streaming.

Com o expurgo dos executivos criativos concluído, a responsabilidade agora pelos canais HBO e os de TV a cabo passou para Casey Bloys, veterano da HBO que agora supervisiona todo o conteúdo de entretenimento da WarnerMedia. Sua nova equipe vai se encarregar dos programas dentro do serviço de streaming que irão complementar séries como Watchmen e Sucession. Ele apontou para séries que atraem audiências mais jovens, como Green Lantern e Gossip Girl como modelos para ampliar o serviço. O sucesso vai depender, em parte, da capacidade de a companhia comercializar seu serviço de streaming e talvez mais da disposição real da AT&T de continuar despendendo na TV como Netflix e Disney.

Bloys é um excelente programador e não alguém com poder ou um político no estilo antigo. Na verdade, os chefões de estúdios parecem ter perdido seu espaço central na estrutura de poder americana e se tornaram apenas empregados bem remuneração de empresas comuns, com atenção nos resultados financeiros. Há uma exceção, a Disney, que também começa a experimentar a regra: a Disney + de Bob Iger entrou na onda do streaming para oferecer um serviço que atende ao momento do coronavírus.

“A Disney continuará relevante no futuro”, disse Barry Diller, que dirigiu a Paramount e a Fox e agora é diretor executivo da companhia de mídia digital IAC. “Todos os demais são caddies num campo de golfe que jamais jogarão”.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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