Aline Lara
Aline Lara

'A representatividade é essencial no audiovisual', diz diretor de 'Mare Nostrum'

Ricardo Elias, diretor de ‘Mare Nostrum’, explica sua opção pela leveza ao abordar temas ligados a questões sociais, e raciais

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2018 | 06h00

Já se passaram 15 anos desde que Ricardo Elias dirigiu o jovem Sílvio Guindane em De Passagem. O filme fez bela carreira em festivais internacionais e, no Brasil, venceu Gramado. Elias dirigiu depois Os 12 Trabalhos. Amigo de seu ator, conversa muito com Guindane pelo telefone. Numa dessas conversas, falavam de Mare Nostrum e da dificuldade que Elias estava tendo para achar um ator para o novo filme. Ele detalhou o papel – um pai em crise financeira. Viveu muito tempo no exterior. Voltou para o Brasil e não tem dinheiro para pagar a escola da filha.

Guindane ouvia e, de repente, disparou – “Você está querendo que eu faça o filme, é isso? Se for, eu topo.” Elias vacilou – “Deixa eu pensar um pouco e já te ligo.” Desligou e imediatamente ligou de novo. “Quero, vamos nessa?” Foi assim que se decidiu a parceria em Mare Nostrum, que estreia nesta quinta, 4 – na brodagem. A história tem a ver com um episódio da vida do diretor. “Meu pai tinha esse terreno na praia. Quando ele morreu e fomos fazer o inventário, descobrimos, meus irmãos e eu, que ainda estava no nome do antigo dono. Eram outros tempos. As coisas eram feitas sem burocracia. Um aperto de mãos valia mais que qualquer papel.”

Sílvio, ou seu personagem – Roberto –, vai vender o terreno do pai e descobre que está em nome de outro homem, um japonês. O corretor resolve procurá-lo e descobre o paradeiro, mas o filho – Mitsuo –, que tem de assinar pelo pai incapacitado, pede dinheiro. Também ele está atolado em dívidas e precisa de um pouco de dinheiro para (re)começar. Começam brigas, entre os personagens de Guindane e Ricardo Oshiro. Chegarão a um entendimento. Não seria um filme de Ricardo Elias sem um toque de solidariedade (De Passagem) e até magia (Os 12 Trabalhos do mítico Hércules). Roberto tem essa filha que o acompanha nas viagens à praia. E, para a garota, que se reaproxima do pai, o terreno é mágico. Um pedido que é feito dentro dele, e o desejo realiza-se.

Nunca foi a intenção de Ricardo Dias explicitar se o terreno é mesmo mágico, ou não. É um diretor que investe nas pequenas coisas, no não dito. No centro dessa fábula está a questão da paternidade. Roberto e seu pai, Mitsuo e seu pai. Roberto quer escrever um livro sobre um mítico jogador que terminou a vida na miséria. Esse jogador existiu de verdade, ou é pura ficção? Crianças, Roberto e Mitsuo colecionam um álbum de figurinhas da seleção de 1982. A figurinha mais difícil, a mais requisitada, era do grande Dr. Sócrates. Essa figurinha será encontrada e terá um significado emocional na trama.

“Queria fazer um filme simples, mas com coração”, diz o diretor. Não são características, ou qualidades, em alta no mercado – que prefere os filmes violentos e os blockbusters de comédia de efeitos. Não necessariamente pelos personagens da família japonesa, Ricardo Elias diz que sentiu necessidade de rever filmes do Japão – por causa do intimismo. “Mas não sei se imprimiu”, confessa. Cita não apenas o clássico Yasujiro Ozu, com seu olhar sobre a família tradicional, mas também Hirokazu Kore-eda e Naomi Kawase. “Todos partem de situações corriqueiras; é o cinema que me encanta.”

Sem lembrar o nome, Elias cita o escritor que diz que a leveza é insustentável – Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser? Sua intenção, em meio à desgraceira do mundo atual (desemprego, perseguições a imigrantes, etc.), foi fazer um filme leve. Leve, mas comprometido. A representatividade é fundamental. Os negros estão presentes em todos os filmes do diretor, em Mare Nostrum mais ainda. “A representatividade é essencial no audiovisual. Nós, brasileiros, temos uma dívida muito grande com a questão do negro no País.”

 

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