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A relação de amor e desprezo entre Manoel de Oliveira e Agustina Bessa-Luis

Cineasta e escritora trabalharam juntos, mas trocavam críticas

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2015 | 10h35

 Tratado por mestre, o cineasta português Manoel de Oliveira foi saudado em todos os eventos de que participou durante a 28.ª Mostra de BR de Cinema, em 2004.  Ele concedeu diversas entrevistas, mas se surpreendeu quando o repórter do Estado lhe perguntou sobre sua relação com a escritora portuguesa Agustina Bessa-Luis. 

Antes de reproduzir a resposta do cineasta, é conveniente uma rápida explicação: uma das mais respeitadas autoras de prosa portuguesa, Agustina é, aos 92 anos, reverenciada pelos novos escritores de seu país por seu interesse pelo novo, o proibido, o ousado. Uma mulher empenhada em escrever para descobrir o que está por vir e analisar o passado. Caminho semelhante ao da cinematografia de Manoel de Oliveira, daí a parceria que ambos estabeleceram em adaptações de obras dela para a tela grande, como Francisca, Party, As Terras de Risco (que virou O Convento no cinema) e principalmente Vale Abraão, lançado no Brasil pela Planeta naquele ano.

“Agustina não gosta de meus filmes porque ela tem a cabeça muito dura”, respondeu Oliveira, tentando manter uma seriedade e esconder um sorriso maroto. “Ela gosta muito de brigar a ponto de o título de seu próximo romance, Antes do Degelo, tratar de algo que nunca vai acontecer entre nós.”A pirraça nada mais é que um ingrediente vital na amizade dos dois artistas, que se respeitam profundamente.


“Ele tomou um caminho correto, seguindo o tema de uma mulher, Ema, que não fica multiplicada”, disse Agustina ao Estado, em 2004. “Manoel foi bastante fiel, mesmo com algumas mudanças. E, apesar de tantos anos, apesar de ser uma atualização do caso Bovary, a história traz o problema da angústia de uma mulher de província. Mesmo não existindo mais essa mulher provinciana que, por ser muito diferente daquelas que viviam na cidade, criava ilusões, desejos amorosos mais intensos, curiosidades mais acentuadas. No linguajar de hoje, ela seria uma mulher neurótica.” 

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