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A redescoberta de ‘Playtime’

Maior fracasso de bilheteria de Jacques Tati, filme do diretor francês é lançado pelo selo Cult Classic em DVD

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2015 | 16h00

O diretor francês Jacques Tati (1907-1982) era um perfeccionista. Não contente em levar seus produtores (e a irmã) à falência, ao filmar seu Playtime em 70 mm, construiu para ele um gigantesco cenário em que retrata uma cidade futurista (com torres de concreto e tudo). Queria, enfim, filmar o épico definitivo sobre a derrocada do mundo moderno.

Em 1967, esse mundo abria portas de vidro blindado para escancarar sua arquitetura funcional, pós-bauhasiana, e um design sem ornamentação. Nele, apartamentos se assemelham a aquários e escritórios não se diferenciam de caixas de sapato. É nesse mundo que o senhor Hulot, alter ego de Tati, vai parar no labiríntico Playtime.

Em boa hora, o selo Cult Classic, que já lançou outros filmes de Tati (Meu Tio, As Férias do Sr. Hulot), coloca no mercado a versão restaurada dessa obra-prima que andava esquecida. Playtime, apesar do cartaz alegre, não tem nada de divertido. Há, sim, sequências engraçadas com personagens deslocados, mas eles parecem emergir direto das páginas de Kafka para o cinema – e não sem razão, Jacques Tati é a referência máxima do cineasta americano Wes Anderson (Os Excêntricos Tenembaums, Grande Hotel Budapeste).

A rigor, existe uma hipótese e uma tese em Playtime, hoje um clássico sobre a alienação urbana e a assepsia do mundo moderno, como o definiu Jonathan Rommey. Não é preciso muito para demonstrar esse teorema, apenas alguns personagens que sintetizam a brutalidade desse mundo, em que todos são condenados a circular sem pausa por cenários hostis à presença humana. Transporte e movimento são dois temas umbilicalmente ligados a Tati, em particular a seu Playtime. No final, um carrossel insano de automóveis girando sem cessar é a imagem que faz do seu cinema uma arte metonímica, de natureza figurativa, como dizia o sábio Roland Barthes.

Tati deveria estar vivo para filmar a vida no século 21. Se, em 1967, já satirizava a dependência do circuito eletrônico – aparelhos de televisão, telefones, que deveriam estar a serviço da comunicação humana – imagine o que faria hoje com as redes sociais da internet. Recorrendo a metáforas, ele usa portas (hoje seriam portais) como meio de conexão entre seus personagens, sejam eles turistas acidentais, executivos ou americanos rudes que se comunicam aos gritos. Tati é um mestre no uso do som. E, também, da imagem, subvertendo a perspectiva renascentista. O que parece perto está distante, o que está longe está próximo, como na perspectiva invertida. Não existe mais o ponto de fuga. O homem é o centro de sua tela.

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