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'A Qualquer Custo' revela o declínio do oeste americano

Filme busca abraçar a cultura tradicional americana

Mariane Morisawa, ESPECIAL PARA O ESTADO

06 de fevereiro de 2017 | 18h42

CANNES - Desde que foi apresentado em maio, na mostra paralela Um Certo Olhar, no Festival de Cannes, A Qualquer Custo foi cultivado como uma pequena joia. De lá para cá, ganhou força lentamente, até chegar às três indicações ao Globo de Ouro (melhor drama, ator coadjuvante para Jeff Bridges e roteiro para Taylor Sheridan). Elas deram o impulso final para que o longa-metragem, que está em cartaz no Brasil, embalasse na corrida pelo Oscar, disputando quatro estatuetas (melhor filme, ator coadjuvante para Jeff Bridges, roteiro original e edição).

O roteiro de Taylor Sheridan, também ator e autor de Sicario, de Denis Villeneuve, mostra dois irmãos, Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster), assaltando pequenas agências de um banco em vilarejos isolados no oeste do Texas. Tanner tem um passado no crime, mas Toby, não. Em seu encalço, está o xerife Marcus (Jeff Bridges) e seu parceiro nativo-americano Alberto (Gil Birmingham).

A Qualquer Custo é uma mistura de filme de estrada e western, dirigida por um escocês, David Mackenzie (Starred Up). “Já tinha passado um período no oeste do Texas”, contou o cineasta em entrevista ao Estado, em Cannes. “Sabia que queria um dia filmar naquele ambiente, então esta foi uma grande oportunidade. Tentei realmente abraçar a cultura tradicional americana.” Mas ele percebeu que tinha um olhar diferenciado, junto com o diretor de fotografia Giles Nuttgens e o montador Jake Roberts, também britânicos.

“Coisas que os americanos acham mundano, nós achamos interessante e bonito”, contou. Por exemplo: os carros que nunca são descartados e ficam estacionados nos quintais amplos, para o reaproveitamento das peças. Seus atores acham que ele se deu bem. “Seu filme anterior, Starred up, era potente e sensível e também falava sobre família, especialmente sobre a relação difícil entre dois homens que se amam”, disse Ben Foster. Para Chris Pine, sem dúvida há uma sensibilidade de fora. “E ele tem uma feminilidade também, boa para um filme tão masculino.”

Fazer um western era um sonho para Mackenzie, como para quase todo diretor de cinema. “O que me fascina é o espaço, tão amplo que a humanidade sobressai, assim como os temas.” Por exemplo, a nova cara dos Estados Unidos, as transformações pelas quais o país passa, especialmente a região sudoeste. “Num lugar tão espaçoso, sem concentração de pessoas, cada um precisa se virar sozinho. Ainda resta aquele espírito dos pioneiros. Mas o filme fala um pouco do fim disso. Tem uma fala em que Alberto diz: ‘A Comancheria (região retratada que antigamente era território dos comanches) era do meu povo, depois virou do seu povo, agora é terra de ninguém’. Isso parece interessante.” Pine acrescentou: “Taylor Sheridan fala que é um longa sobre a morte do Oeste americano”.

Esse declínio de um modo de vida é marcado por propriedades que foram tomadas pelos bancos, na grande crise imobiliária e financeira iniciada em 2008. “Todo o mundo pensa: só um louco para roubar um banco”, disse Foster. “Mas nosso país enlouqueceu. O mundo só está percebendo agora a situação grave em que estamos, em que as pessoas estão perdendo suas casas para uma indústria corrupta. Só estamos fazendo perguntas sobre o estado do nosso país: o que você faria? Quanto tempo vamos deixar isso acontecer?” Para o ator, é um privilégio estar num filme que entretém, mas que também levanta essas questões, mais pertinentes do que nunca nos Estados Unidos.

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