A poesia de Drummond em filmes

Há 40 anos o jovem cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) submetia, temeroso, seu filme O Padre e a Moça aos censores do regime militar, que logo determinaram dois cortes na obra - um deles traumático por eliminar parte da seqüência final. O longa que projetou o diretor volta agora a ser exibido na mostra que o Centro Cultural São Paulo abre hoje em homenagem ao poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), objeto de estudo do recente livro do crítico Jerônimo Teixeira, Drummond Cordial (Nankin Editorial, 240 págs., R$ 25). A mostra reúne dez produções feitas para o cinema e a televisão, sobre ou baseadas em escritos de Drummond. Alguns desses filmes há muito não são exibidos, como o longa Enigma para Demônios, do diretor de origem argentina Carlos Hugo Christensen (1914-1999), também autor do documentário Crônica da Cidade Amada, incluído na programação e que mostra o Rio de Janeiro na visão dos escritores Drummond, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. O último, aliás, é co-autor do curta O Fazendeiro do Ar, realizado em 1974 em parceria com o cineasta David Neves. Raro documento sobre o poeta, que percorre cenários familiares como o prédio modernista do Ministério da Educação, o filme da dupla registra o cotidiano de Drummond, que fala de Itabira, existencialismo, amigos e até religião, admitindo que sentia inveja dos que tinham uma. O conjunto de filmes na mostra do Centro Cultural revela um autor eternamente dividido entre as fazendas mineiras e a vida pública no Rio. Nostálgico, mas empurrado para a modernidade por Mário de Andrade, Drummond encarna o homem cordial submetido às pressões da vida mecanizada urbana, segundo o livro do crítico Jerônimo Teixeira. Entre a nostalgia de um mundo arcaico e o vislumbre de um outro, inaudito, anunciado pelo modernismo brasileiro, o coração do poeta bate no compasso das rápidas mudanças do Brasil dos anos 1930. Há duas provas dessa oscilação: os dois documentários de Maria Maia que abrem a mostra, Drummond, Poeta do Vasto Mundo (2002) e Capanema: Um Modernista no Ministério (2000). A qualidade das cópias dos dois vídeos não é boa, mas vale o sacrifício, principalmente para ver o primeiro documentário, feito há quatro anos em homenagem ao centenário de nascimento do poeta. No programa de hoje, o destaque é o curta A Hora Vagabunda, que o mineiro Rafael Conde rodou em 1998. O título é tirado de um verso do poeta, "A hora vagabunda, a hora do cinema". Conde narra o conflito de um jovem (André Vidal) que, a exemplo de Drummond, se vê obrigado a deixar para trás as montanhas de Minas e seguir para o eixo Rio-São Paulo em busca de realização. Também hoje será exibido o longa O Vestido (2004), de Paulo Thiago, diretor do documentário O Poeta de Sete Faces (2002), no programa de amanhã. O programa de quinta tem Enigma para Demônios, realizado há 31 anos. Carlos Hugo Christensen baseou-se no conto Flor, Telefone, Moça, sobre uma jovem que visita o túmulo da mãe e passa a receber uma série de telefonemas anônimos. Na sexta-feira, o destaque fica com O Padre e a Moça, que será exibido numa cópia em DVD. Os cortes impostos pela censura da época provaram que o Brasil não havia mudado nada desde que Drummond contara a história de um padre (Paulo José) que se envolve com uma garota do interior mineiro (Helena Ignez).Rua Vergueiro 1.000, telefone 3277-3611. Grátis. Até 5/2 Carlos Drummond de Andrade.A partir das 16h: Drummond, Poeta do Vasto Mundo, O Vestido, A Hora Vagabunda, O Fazendeiro do Ar e Cabaret Mineiro. Centro Cultural São Paulo.

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