Sarah Stacke/The New York Times
Sarah Stacke/The New York Times

A pandemia está mudando Hollywood, talvez para sempre

Até recentemente os espetáculos de grande orçamento foram adiados por causa da covid-19

Jake Coyle, AP

28 de novembro de 2020 | 11h00

NOVA YORK - "Nada de filmes novos até que a gripe termine", era a manchete do New York Times em 10 de outubro de 1918, quando da segunda onda da gripe espanhola.

Um século mais tarde, durante outra pandemia, os filmes - considerados não mais necessários - enfrentam novamente uma conjuntura crítica. Mas não porque novas produções não vêm sendo lançadas. Nos serviços de streaming, vídeo por encomenda, cinema virtual ou realmente no cinema, uma provisão de filmes é lançada a cada semana. O Times fez resenhas de mais de 460 filmes novos desde meados de março.

Mas até recentemente - com poucas exceções - esses filmes não eram espetáculos de grande orçamento que Hollywood está produzindo. Oito meses de pandemia, isso está mudando. No mês passado, a Walt Disney Co. fez uma experiência com Mulan, filme com um orçamento de US$ 200 milhões, oferecendo um valor com desconto na compra do filme no seu serviço de streaming Disney+, onde Soul, da Pixar, também será transmitido em 25 de dezembro. A WarnerMedia, na semana passada, anunciou que Mulher Maravilha 1984, filme que renderia uma bilheteria de US$ 1 bilhão num verão normal - estará nos cinemas e no HBO Max simultaneamente no próximo mês.

Muita coisa continua incerta sobre como o setor cinematográfico sobreviverá à pandemia. Mas está cada vez mais claro que Hollywood não será a mesma no futuro. Do mesmo modo que a gripe espanhola, que acabou com as companhias menores e contribuiu para a formação do sistema de estúdio, a covid-19 está reformulando Hollywood, acelerando a transformação digital e potencialmente reordenando um setor que já estava num estado de incerteza.

“Não acho que o gênio vai voltar um dia para a garrafa”, disse o produtor Peter Guber, presidente da Mandalay Entertainment e ex-diretor da Sony Pictures. “Será um novo sistema de estúdio. Em vez de MGM e Fox, teremos Disney e Disney+, Amazon, Apple, Netflix, HBO Max e Peacock”.

Muita coisa em 2020 pode ser atribuída às circunstâncias excepcionais. Mas vários estúdios vêm fazendo um realinhamento em torno do streaming pensando no longo prazo.

A WarnerMedia, a AT&T, que é proprietária da Warner Bros. (fundada em 1923) hoje é dirigida por Jason Kilar, conhecido como ex-diretor executivo do Hulu. No mês passado, Bob Chapek, diretor executivo da Disney e herdeiro de Robert Iger, anunciou uma reorganização da companhia que vai dar ênfase ao streaming e “acelerar nossos serviços diretos ao consumidor”.

A Universal Pictures, que pertence à Comcast, tem se lançado agressivamente no campo do vídeo sob demanda. Sua primeira incursão foi com Trolls, e provocou uma disputa com os proprietários de salas de cinema. Mas à medida que a pandemia se intensificou, a Universal firmou contratos sem precedentes com AMC e Cinemark, a maior e terceira maior cadeias, respectivamente, para reduzir fortemente o tempo de um filme nas salas (normalmente dura três meses). Depois desse período a Universal poderá oferecer os filmes lançados que não obtiveram um determinado limite de bilheteria para serem alugados via digital.

Embora a segunda maior rede de salas de cinema, a Regal Cinemas, tenha resistido a esses acordos, todos reconhecem que a época em que um filme ficava em exibição numa sala por 90 dias acabou. E isto era o que os estúdios queriam há muito tempo tendo em vista o benefício potencial de cobrir ambas as plataformas com uma única campanha de marketing. Muitos veem essa pandemia como a aceleração de uma tendência de décadas.

“As coisas estão mudando”, disse Chris Aronson, chefe de distribuição da Paramount Pictures. “Tudo o que vem ocorrendo agora vai continuar, só que essa evolução vem acontecendo mais rápido do que seria. O que levaria três anos vai se verificar em um ano. Talvez um ano e meio”.

Esse período condensado de mudanças rápidas acontece ao mesmo tempo em que verificamos uma disputa por uma fatia do mercado de streaming, com a Disney+, HBO Max, Apple e Peacock lutando por uma parte da audiência que assiste filmes em casa, área hoje dominada pela Netflix e Amazon. Com os parques temáticos em dificuldades e as bilheterias dos cinemas em todo o mundo registrando perdas de dezenas de bilhões, o streaming é uma esperança para as companhias de mídia e a pandemia oferece uma oportunidade única para atrair mais assinantes. Mulher Maravilha 1984 e Soul envolvem um gasto de publicidade muito grande para esses serviços de streaming.



Cada estúdio, dependendo da empresa proprietária e seu posicionamento no caso do streaming, vem adotando uma estratégia diferente. Paramount, como a Sony Pictures, não possui um serviço de streaming. Quanto à Paramount, Um lugar silencioso, Parte II, Top Gun Maverick e Missão Impossível 7 devem ficar para 2021, ao passo que O Julgamento dos Sete de Chicago, que rendeu US$ 56 milhões para a Netflix, e Um príncipe em Nova York, de Eddie Murphy, foram para Amazon Prime Video por US$ 125 milhões.

HBO Max tem tido um lançamento com mais sobressaltos do que a Disney+. Mulher Maravilha 1984 é uma aposta especialmente crucial para a WarnerMedia depois do audacioso lançamento de Tenet. Como o primeiro filme para grandes bilheterias para testar os cinemas reabertos com protocolos de segurança e número menor de público, o filme rendeu US$ 350 milhões em todo o mundo - o que foi muito se levarmos tudo em consideração, mas bem menos do que era esperado originalmente. O analista do Credit Suisse, Douglas Mitchelson qualificou os planos para Mulher Maravilha - que incluem lançamento em cinemas na China, Europa e outros lugares, “um grande experimento que pode ter implicações duradouras se for um sucesso”.

O diretor Patty Jenkins reconheceu que o lançamento simultâneo é um tipo de sacrifício, não apenas para HBO Max, mas para as famílias presas em casa. “Você tem de escolher compartilhar o amor e alegria que deve dar acima de todo o resto”, escreveu Jenkins no Twitter.

É fácil aplaudir essas medidas, mesmo que o desempenho financeiro seja nebuloso. Você conseguirá repetir o ganho US$ 1 bilhão das bilheterias dos cinemas com novas assinaturas?

“Tudo no geral é mais complicado do que as pessoas gostariam”, disse Ira Deutchman, produtor de filmes independentes e professor na universidade de Columbia. “A maneira como os filmes são feitos e distribuídos, certamente a nível de estúdio, realmente precisa de uma mudança e esperamos que ela venha a ocorrer”.

Deutchman acha que a ideia de que as pessoas, depois de um ano de quarentenas e lockdowns não vão querer deixar sua sala de estar é “ridícula”. Mas ele imagina que haverá fusões e aquisições constantes e um novo equilíbrio no caso dos distribuidores e proprietários de cinemas.

Mas se, por outro lado, os cinéfilos novamente se sentirem tranquilos para frequentar salas de cinema lotadas na semana de lançamento de algum filme? Certamente a permanência durante meses de filmes como  foi o caso de Titanic ou Get Out é coisa do passado. Mas pode significar uma cobrança de ingressos variáveis em noites diferentes. E uma maior divisão entre os filmes franqueados dos cinemas multiplex, no geral com tudo indo direto para o streaming.

A perspectiva é um tanto sombria para os grandes exibidores”, disse Jeff Bock, analista da Exhibitor Relations. Ele acha que a redução do tempo de exibição de um filme nas salas de cinema vai significar que poucos filmes vão superar a marca de US$ 1 bilhão de bilheteria. E alguns estúdios, como Disney, poderão operar suas próprias salas como “parques mini-temáticos” enchendo seus saguões com merchandising.

Nesse ínterim, os proprietários de cinemas aguardam o tão necessário auxílio financeiro do Congresso. Com o vírus se intensificando, apenas 40% das salas nos Estados Unidos estão abertas. Em Nova York e Los Angeles estão fechadas desde março. As cadeias de cinema se endividaram para conseguirem se manter e evitar uma falência. Cineword, da empresa Regal Cinemas, que está fechado, anunciou ter obtido um empréstimo de US$ 450 milhões.

Será uma temporada de fim de ano muito diferente - normalmente esse é o período mais lucrativo para os cinemas e para o setor cinematográfico. O quão diferente será 2021 e mais além é difícil prever. Algumas coisas, contudo, poderão nunca mudar.

“Se você está envolvido nessa atividade não importa o que faz ou onde o filme vai ser exibido, num serviço de streaming ou numa sala de cinema, você vai produzir filmes de sucesso ou um fracasso. A ideia é produzir mais sucessos do que fracassos”, disse Gruber.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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