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‘A Odisseia de Alice’ vê de perto a vida de uma mulher dentro de um navio

Filme Lucie Borleteau é um pequeno e sutil estudo sobre o desejo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

10 de junho de 2016 | 05h00

A Odisseia de Alice, estreia em longas de Lucie Borleteau, poderia ser apenas mais uma variante do manjado tema “mulher enfrenta ambiente masculino”. Seria desse jeito, não fosse um sensível modo de filmar e seguir de perto a trajetória psicológica de uma jovem mulher embarcada num velho cargueiro como engenheira mecânica.

A bordo, Alice (Ariane Labed) descobre que arranjou emprego para substituir alguém morto num acidente. Ela deixa seu namorado em terra e embarca. Durante a viagem, faz duas descobertas – o capitão (Melvil Poupaud) é um antigo namorado e no quarto que vai ocupar, que também era o do seu antecessor, existe um diário do homem morto. Passa a lê-lo sofregamente.

Lucie Borleteau não faz um filme alucinatório de modo explícito, mas inclui alguns toques exacerbados de realismo psicológico. O próprio navio, decadente, induz essa percepção no espectador. Ele é velho, em fim de carreira. Arrasta-se pelos mares qual um navio fantasma.

Navega, não se sabe direito com qual destino e ignora-se a carga que transporta. Diz-se, de maneira vaga, que o capitão vai escolhendo os portos de acordo com as “flutuações do mercado”, essa deidade contemporânea. O mercado então é como um deus a controlar o destino e os movimentos dos tripulantes do Fidelio – o barco tem o mesmo nome da única ópera de Ludvig van Beethoven. Evoca, claro, a questão da fidelidade.

Lembra, por outro lado, uma espécie de Pequod contemporâneo, o mítico navio de Moby Dick, no qual o narrador Ismael embarca para tirar de si a grande melancolia e a tristeza do mundo. Sem saber que estava embarcando rumo à morte e à tragédia. Há algo de Ismael em Alice, embora esvaziado um tanto do conteúdo trágico e metafísico de Herman Melville. Mas a verdade é que Alice traz em si uma tristeza profunda, talvez camuflada pela vitalidade e por uma singular disposição para a sexualidade.

Mas sua viagem é, acima de tudo, uma busca de si mesma. Embora seja banal associar os termos “viagem” e “procura de si”, no caso parece ser mesmo a inspiração principal da diretora. Mesmo o termo do título “odisseia” remete à viagem primordial, a de Ulisses e sua acidentada volta para casa, e para Penélope, que o espera.

Alice, então, é como um Ulisses de saias (embora não as use). Enfrenta o mar, vive nele, e de vez em quando baixa à terra. Vê a família, sai com o namorado. Envolve-se com outros homens e não sabe direito o que ou a quem deseja. O filme é também um pequeno estudo sobre o desejo, usando o mar e a navegação como metáforas. Viaja-se, e viajar é agradável, quanto mais variada for a paisagem. Mas talvez se deseje no fim um porto seguro, embora este seja a negação de todos os outros portos possíveis. É um pouco a questão contemporânea, seja de homens ou de mulheres. Não existe resposta clara para ela, porque sempre se perde alguma coisa, qualquer que seja a escolha.

Com uma mise-en-scène segura, a diretora não parece uma principiante. Faz um filme acima da média, bem pensado e conduzido. Trabalha muito bem os ambientes internos do Fidelio, que são como os desvãos escuros da própria personagem. Enfrenta sem muitas complicações essa antiga entidade simbólica que é o mar e a situação peculiar dos que dele fazem sua casa e profissão. Não por acaso, entre os livros que o namorado de terra presenteia Alice está um clássico dessa representação – O Marinheiro de Gibraltar (Le Marin de Gibraltar), de Margueritte Duras. A cineasta trabalha também com sabedoria essa antiga cultura oceânica. É uma carreira a ser seguida com interesse.

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