A noite em que o Cine Olido saiu de cartaz

Apenas seis pessoas testemunharam a última sessão do cine Olido na noite da última quinta-feira. Inaugurado em 1957, foi o primeiro cinema da cidade a funcionar em uma galeria. O Olido até tentou sobreviver à decadência do centro. No início da década de 80, a empresa que o controlava, a Sul Paulista, fez uma ampla reforma e dividiu a única sala de 800 lugares em três com capacidade para 419 pessoas (sala 1), 239 (sala 2) e 241 (sala 3). A iniciativa teve vida curta. Em 1996, a Playarte comprou o cinema e anunciou sua morte, consumada com a exibição na sala 2 do filme Planeta dos Macacos. Foi o último trabalho da velha projetora Philips operada por Severino Dino da Silva, de 55 anos, 18 dos quais no velho cinema do Largo Paissandu. "Estou chocado. A gente se acostuma e sente até tristeza", disse olhando a "Philipinha", apelido dado à projetora. Severino quer se aposentar porque não vê futuro para o cinema, vítima, segundo ele, do vídeo: "As pessoas hoje só querem saber de filme pornô. Elas passam na locadora e vão para casa. O cinema acabou".Dona Araci, uma senhora de cabelos brancos, era o retrato da desolação. Há 43 anos trabalha na bomboniére. "Não quero falar sobre isso", disse quase chorando sentada atrás do balcão. Ela testemunhou uma época em que ir a Olido implicava pequenos cuidados de elegância. Segundo o pesquisador Inimá Simões, autor de Salas de Cinema em São Paulo, a construção do cinema fazia parte de um projeto de elitização do centro da cidade. No espaçoso lobby revestido de mármore e adornado com grandes espelhos de cristal havia piano e orquestra, que tinha até prefixo: The Best Things in Life are Free (As melhores coisas na vida são grátis).O Olido, inaugurado com o filme Tarde Demais para Esquecer, do irlandês Leo McCarey, no qual Cary Grant se apaixona por Deborah Kerr, era conhecido como a sala mais moderna do País e ponto de encontro da elite paulistana nas décadas de 50 e 60. Foi ainda pioneiro na instalação de poltronas numeradas e sistema de reservas para evitar filas.Manuel do Vale, gerente do cine há nove anos, não se conformava com o fato de que aquela seria sua última noite. "Nada foi investido aqui nos últimos anos. Além disso, você olha aí fora e só vê prostitutas e ladrões. Ninguém se dispõe a vir num cinema num lugar como este". Procurada pelo Grupo Estado para revelar os planos para o futuro das salas, a Playarte não se manifestou.

Agencia Estado,

31 de agosto de 2001 | 21h25

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.