"A Musa": comédia simples para televisão

Fellini, em um momento de crise criativa, escreveu e dirigiu 8 e ½, sobre um diretor que enfrentava um bloqueio. Albert Brooks, provavelmente também em crise, escreveu e dirigiu A Musa (The Muse, 1999), que estréia hoje em São Paulo, sobre um roteirista que também sofre um grande bloqueio. A diferença entre os dois filmes é que o primeiro realizou uma obra-prima, um filme clássico e fundamental para quem aprecia a sétima arte, enquanto o segundo consegue apenas mostrar uma comédia simples e de pouca graça. Um filme que deve funcionar melhor na tela da televisão do que nos cinemas.A musa do título é Sarah (Sharon Stone), que deve inspirar o roteirista Steven (Albert Brooks) a escrever um filme que irá levá-lo de volta ao topo. Só que a musa tem suas manias e ele terá de satisfazê-la para receber novas idéias.No filme, temos algumas participações especiais de conhecidos diretores que vêm receber a inspiração da musa, como James Cameron, de Titanic, e Martin Scorsese, de Os Bons Companheiros. Talvez Brooks precisasse mesmo é da inspiração deles e não de Sharon Stone. A direção do filme é matemática. Os personagens se encontram em planos abertos, começam a conversar e a câmera fecha em seus rostos. Como se fala muito no filme - afinal as melhores piadas estão nos diálogos - tudo o que se vê é um grande e burocrático exercício de plano e contra-plano. Para piorar as coisas, o roteiro - que também é assinado por Brooks - mais enche lingüiça do que conta uma história. Depois que a musa começa a fazer seus pedidos, a história pára. Passamos a ver a mulher de Steve, Laura (Andie Macdowell), fazendo cookies e a musa fugindo dos "serviços" que deveria executar. A única coisa boa é uma metalinguagem com o roteiro que Steve está escrevendo. Assim, quando ele não consegue mais escrever, o filme não anda (na maior parte do tempo). E, quando a musa sugere uma idéia pouco original para resolver a trama em que Steve trabalha, aparecem duas pessoas para (finalmente) mudar a história- mas não muito, já que o filme está quase no fim.É por isso que A Musa deve funcionar melhor na televisão do que na tela grande. Não existem grandes planos ou tomadas - portanto, nada irá se perder quando for diminuído para TV. Como tudo é explicado nas falas dos personagens, pode-se, ao mesmo tempo, cortar as unhas sem perigo de se perder algum detalhe. Depois da primeira meia hora de projeção, a história só vai se alterar nos últimos dez minutos - excelente momento para se ver o que está acontecendo em outros canais e - o melhor de tudo - se se pegar o filme no meio, não tem problema: a trama é reexplicada algumas vezes.Óbvio que comparar Brooks com Fellini é injusto. Antes de 8 e ½, o italiano fez o espetacular A Doce Vida e já era mundialmente reconhecido. E é difícil citar o que o americano já realizou. Provavelmente o espectador já viu alguns filmes dele, mas não consegue se lembrar de nenhum.

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