"A Mulher do Lado" reestréia em cópia nova

Truffaut era mesmo o "cineasta do amor". Mas se há uma linha mais fundamental a ser seguida em sua obra é a da autobiografia. Isso, desde seus primeiros filmes, o curta Les Mistons (algo como "Os Pivetes") e o longa Os Incompreendidos. Estão lá, disfarçados e retrabalhados na ficção, os acontecimentos de vida de quem foi delinqüente, teve problemas com uma mãe tida como promíscua e rondou perigosamente a criminalidade, até ser resgatado pela mão amiga do grande crítico André Bazin. Literalmente: Truffaut salvou-se do naufrágio pelo cinema. Mais tarde, já consagrado, ele faria uma homenagem à arte que abraçou no belíssimo A Noite Americana. Livremente autobiográfica é toda a série Antoine Doinel, nome do alterego interpretado por Jean-Pierre Léaud em diversos estágios de sua vida, com Os Incomprendidos, Beijos Proibidos, Domicílio Conjugal e Amor em Fuga. Além disso, Truffaut dialogou com o noir em Atirem no Pianista e A Noiva Estava de Preto, com a ficção científica em Fahrenheit 451, e criou uma estranha ode mórbida em O Quarto Verde. Teve bastante diversidade em sua vida, mas é verdade que a chave memorialística foi nele a mais pronunciada. E, como era um grande amoroso, um homme à femmes, é natural que isso se destaque em sua obra. Mesmo a série Antoine Doinel, com exceção do primeiro, quando o personagem era ainda criança, refere-se às aventuras amorosas do alterego. Truffaut mostrou o paradoxismo da paixão em um filme tão belo quanto Adele H. E analisou a compulsão de conquista em O Homem Que Amava as Mulheres, muito bem interpretado por Charles Denner. Neste se releva o que seria uma filosofia da sedução para Truffaut. Denner é um aficionado, um adicto do sexo oposto. Em nenhum momento, no entanto, procede com a vulgaridade de um dom-juan, ou a frieza de um Casanova. É um artista, sabe que o refinamento é amigo do desejo. Por exemplo, gosta de escutar a música de uma meia de seda roçando na outra quando uma bela mulher caminha. Coisa de connaisseur. Portanto, um cineasta do amor, em que pese a limitação da afirmativa. E, mesmo nesse domínio em que era especialista, talvez Truffaut não tenha atingido ponto mais alto do que em A Mulher do Lado. Aliás, foi seu último grande filme. Depois dele fez o apenas mediano De Repente num Domingo, e morreu prematuramente, com 52 anos, atingido por um tumor no cérebro.A Mulher do Lado é daqueles filmes em que tudo funciona. Da história enxuta à química entre o par central. Do clima misterioso a um desfecho surpreendente, que atinge e comove o espectador. Mas, sobretudo, pela delicadeza com que a história é narrada. Uma história no fundo simples. Mathilde (Fanny Ardant) e Bernard (Gérard Depardieu), que foram amantes no passado, reencontram-se anos depois. Ele vive com a família em Grenoble e Mathilde muda-se para a casa vizinha com o marido. Reencontram-se, convivem, tornam a se amar. Voltam a cair nas mesmas armadilhas que os separaram anos atrás. Não conseguem ficar juntos. Não conseguem se separar."Ni sans toi, ni avec toi" (nem contigo nem sem ti), comenta outra personagem, esta no papel de narradora da trama, uma espécie de coro grego que comenta a ação trágica. Porque no fundo, é bem de uma tragédia amorosa que trata A Mulher do Lado. No entanto, uma tragédia de bolso, por assim dizer, acessível a cada um de nós, porque, entre outras coisas, Truffaut também foi um extraordinário cineasta do cotidiano. Sabia que a complexidade da vida se tece na ação, nos amores e nos ódios da gente comum - mesmo que essa gente "comum" seja encarnada na tela por mulheres como Catherine Deneuve, Fanny Ardant, Jeanne Moreau, Isabelle Adjani.Fanny e Depardieu são jovens, são belos, atraentes. Mas não parecem pertencer a outra raça e outro planeta. São pessoas que poderíamos encontrar em qualquer esquina, ter como vizinhas e amigas. Vieram ao mundo abençoados e condenados por uma paixão recíproca sem remédio. A violência dessa atração fatal não exclui a delicadeza como é narrada. É outra das magias de Truffaut - sabe ser elegante mesmo quando trabalha à beira do abismo. No fundo, praticava uma grande arte, que talvez não tenha sido devidamente reconhecida em seu tempo. Por isso é bom revê-lo. O filme, de 1981, não apresenta uma única ruga visível.

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