A morte do cinema nas páginas da "Cahiers"

Tribuna privilegiada para discussões seminais nos anos 60, a revista francesa Cahiers du Cinéma passou há alguns anos por profundas reformulações. A velha equipe, chefiada por Serge Toubiana, foi reciclada. O projeto editorial também, abrindo espaço para outros derivados do cinema - televisão, videogames, etc., etc. Só uma característica parece continuar inalterada: a vocação insuspeita para a polêmica.Foi o que se estabeleceu nas páginas da revista recentemente, com a publicação de uma série de artigos que discutem se o cinema morreu ou se os princípios da sétima arte ainda sobrevivem na onda de filmes para adolescentes, nos seriados de televisão, nos videogames e em outras formas audiovisuais. A sanha juvenil, o fanatismo cego, a busca pelo efeito teriam contribuído para o esvaziamento da reflexão, do debate de idéias?Vejamos. A discussão começou no número de setembro de 2002, com a publicação do artigo "So SAD" - trocadilho com a sigla da expressão em francês "syndrome adolescence durable" (síndrome da adolescência permanente), que no título forma a frase em inglês "tão triste". Assinado por Stéphane Bouquet, o texto tenta explicar em tom de lamentação porque a atual cultura adolescente fascina setores esclarecidos da cultura, incluindo a própria publicação."Parece-me, lendo números recentes dos Cahiers (e, a bem da verdade, não só esses), que se estabeleceu uma estranha síndrome da adolescência permanente. Não é algo invasivo, não é uma névoa que recobre tudo, mas suficientemente nova para que brilhe mais que o resto. O que é essa síndrome? Muitas coisas, sem dúvida, mas que convergem para um mesmo ponto."Bouquet enumera três características principais. A primeira, o hábito cada vez mais freqüente de tratar os filmes como sendo sobre e para adolescentes, de forma a encarar essa fase da existência como algo imutável. A segunda, a identificação de uma adoração cega por essas produções, sem levar em conta que são sintoma de um estado de coisas. E, por fim, a terceira, a fragmentação excessiva das imagens e a conseqüente diluição do cinema. Como resultado, a singularidade das obras fílmicas se perdeu com o que o articulista chama de "cinema karaokê".A resposta veio no número de dezembro do ano passado, o mais recente nas bancas de jornais e revistas importados. Em um extenso artigo, intitulado significativamente "Contra a Morte do Cinema", Olivier Joyard rebate as críticas de Bouquet, dizendo como o tal "cinema karaokê" - conceito segundo o qual o cinema moderno apenas recicla velhas idéias, com roupagens cada vez mais modernas - ajudou a fugir do maneirismo e abriu espaço para uma torrente de novas imagens.Joyard, que coordena justamente a seção da revista em que são analisados os produtos audiovisuais destinados à televisão, como seriados e documentários, vídeos, DVD´s e videogames, começa sua réplica falando sobre a necessidade de tratar o cinema de forma igualitária, rejeitando qualquer tipo de preconceito com relação a filmes destinados a esse ou àquele tipo de público. Passa pela constatação de que, sem lançar mão dos efeitos, os cineastas estão fadados à repetição e que, por isso, não podem ser condenados. E festeja a imitação como recurso criativo e, até mesmo, como forma de evolução.Como ambos os autores reconhecem em seus textos, a discussão é antiga. O cinema é uma arte tecnológica e, como tal, mutável. Fechar os olhos para essa evolução é ruim até para o debate. Ao levantar mais uma vez essa discussão, Bouquet e Joyard contribuem apenas para enriquecê-la.

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