Ettore Ferrari/EFE
Ettore Ferrari/EFE

'A mentalidade russa não é feita para o capitalismo', diz o cineasta Andrei Konchalovsky

O cineasta de 83 anos mira no Leão de Ouro do Festival de Veneza ao narrar um massacre real ocorrido na União Soviética em 1962 que permaneceu em segredo por décadas

Redação, O Estado de S. Paulo

09 de setembro de 2020 | 10h54

"A mentalidade russa não é feita para o capitalismo", avalia o diretor Andrei Konchalovsky, que concorre no Festival de Veneza com Dorogie Tovarischi! (Caros Camaradas!, em tradução livre), um filme sobre a "pureza" dos ideais comunistas e os abusos de poder na era soviética.

O famoso cineasta de 83 anos, que tem uma extensa filmografia, mira no Leão de Ouro ao narrar um massacre real ocorrido na União Soviética em junho de 1962 que permaneceu em segredo por décadas.

Konchalovsky, vencedor de dois Leões de Prata em 2016 e 2014, retorna a Veneza com um longa em preto e branco de duas horas dedicado à história de uma mulher, militante convicta do Partido Comunista local, que perde seus ferozes ideais depois de testemunhar o massacre na cidade soviética de Novocherkask, durante o qual sua filha desaparece.

"Caros Camaradas! aborda a ambivalência da vida através de uma mulher muito poderosa, stalinista, muito pura, (...) que acredita no comunismo", e a dificuldade que ela tem "para entender que a vida é mais complexa", explicou o diretor em conversa com a AFP.

O filme, apoiado pelo Ministério da Cultura da Rússia, recria o massacre de 1º de junho de 1962 em Novocherkask, quando 5 mil trabalhadores saíram às ruas para protestar contra a alta de preços e o corte de salários.

Para reprimir as greves e protestos, soldados do exército e agentes da KGB abriram fogo contra os manifestantes: 26 pessoas desarmadas perderam a vida, mais de 200 foram presas e sete foram condenadas à morte.

Um massacre ocultado

O episódio permaneceu em segredo até o final da década de 1980, pouco antes da dissolução da União Soviética no final de 1991. O tema "pode parecer muito atual, mas francamente não era essa a minha intenção", assegura o diretor.

Segundo Konchalovsky, considerado próximo do presidente russo Vladimir Putin, o filme "é um conto de fadas sobre os personagens, que são bons e maus ao mesmo tempo".

O filme reproduz aquela época em detalhes e aponta a responsabilidade das autoridades soviéticas no massacre e na sua ocultação. O governo chegou a usar asfalto para cobrir as poças de sangue e obrigou os manifestantes a assinarem uma declaração de silêncio sob pena de morte.

"Muitos comunistas eram muito idealistas, não faziam ideia de como lidar com as coisas ou de como ficariam”, explica o cineasta, que empregou centenas de figurantes e atores não profissionais.

"A maioria das pessoas que viveram sob o regime soviético acreditava que estavam criando algo muito especial e bom para a humanidade", afirma a atriz principal e esposa do diretor, Yulia Vysotskaya. "Havia coisas boas e coisas terríveis. Quem somos nós para julgar?", acrescenta.

O veterano Konchalovsky, que voltou a filmar na Rússia após uma longa carreira nos Estados Unidos, é o cineasta mais velho a disputar o Leão de Ouro este ano, quase 60 anos após sua primeira aparição no Festival de Veneza.

"Os últimos 30 anos, após o colapso da União Soviética, mostraram que a mentalidade russa não foi feita para o livre mercado ou para o capitalismo", analisa o diretor. 

Para ele, o comunismo na Rússia permitiu que "a ganância fosse controlada pelo Estado". "A sociedade que está por vir será uma sociedade onde a ganância estará sob controle e reprimida. Isso é socialismo", conclui.

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