A memória do mundo, por 'Semprun e Resnais'

Um filme de depoimentos e outro que desconstrói códigos de gêneros são atrações para quem fugir do circuito de pré-estreias

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2014 | 03h00

Leon Cakoff, que criou a Mostra, sempre se rebelou contra a transformação de seu evento numa vitrine de pré-estreias. A Mostra deste ano tem exibido e vai continuar exibindo filmes premiados em grandes festivais ou que, pelos nomes dos diretores, atraem o público. O cinéfilo quer ver logo o vencedor de Cannes (Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan) ou de Veneza (Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, de Roy Andersson), quer ver grandes filmes preteridos pelo júri oficial desses eventos (Dois Dias e Uma Noite, dos Irmãos Dardenne, com a sublime Marion Cotillard, e O Segredo das Águas, de Naomi Kawase). Todos devem estrear nas próximas semanas, nos próximos meses. Talvez seja melhor investir na memória do cinema, e do mundo.

Em 1956, Alain Resnais fez um filme curto que ficou clássico - Toute la Mémoire du Monde. No longa, a partir de 1959, com Hiroshima, Meu Amor, Resnais seguiu filmando a memória, o tempo. Desenvolveu uma estética prodigiosa para abordar esses temas. Em 1966, com roteiro do escritor Jorge Semprun, filmou a memória da Guerra Civil espanhola em A Guerra Acabou, com Yves Montand e Ingrid Thulin. Seis anos mais tarde, e sob o título global de Toda a Memória do Mundo, Semprun concebeu um projeto para a Cinemateca Francesa. Fez As Duas Memórias.

O filme dá voz a figuras que estiveram em campos opostos na Espanha, República e Falange. Daí o título - Les Deux Mémoires. Santiago Carrillo, Simón Sánchez Montero, Yves Montand, Maria Casarès, Federica Montseny vão relatando suas lembranças e, por meio delas, Semprun tece o que não deixa de ser uma dupla reflexão, sobre o fio do tempo e um conflito que foi decisivo para a consciência coletiva do século 20. Na Espanha, nos anos 1930, fascistas e comunistas anteciparam a 2.ª Grande Guerra. E, quando a Falange do generalíssimo Francisco Franco triunfou, o que o regime fez, durante 30 anos, até 1973, foi tentar impedir que o país ingressasse na modernidade.

Essas duas memórias de Semprun vão ajudar a iluminar os grandes filmes de Victor Erice - O Espírito da Colmeia e El Sur - que a Mostra colocou entre as suas apresentações especiais deste ano. E, hoje, também, não A Guerra Acabou, mas outro Resnais - Melô - também será exibido no evento. Resnais morreu no começo do ano, logo após a dupla premiação de Amar, Beber, Cantar no Festival de Berlim. O filme venceu o prêmio da crítica e ganhou, do júri oficial, o troféu Alfred Bauer, como obra mais inovadora. Não é o caso. Seu último filme dá uma ideia muito pálida de quão inovador foi Resnais. Melô talvez lhe faça mais justiça.

O filme de 1980 sucede a Meu Tio da América - e também A Vida É Um Romance e O Amor à Morte. Antecede Quero Ir para Casa, que entrou para a história como o filme que ilustra a paixão do diretor pelas HQs. Melô retira seu título de uma redução de ‘melodrama’. Conta a história de um casal que parece feliz, mas a mulher torna-se amante de um amigo do marido, um maestro. Durante boa parte da projeção, ela se vale de ardis para enganar o marido e poder se encontrar com o amante. Sabine Azéma, Pierre Arditi, Fanny Ardant e André Dussollier estão no elenco. Resnais, que sempre amou o teatro, teatraliza as relações. O que é verdadeiro, o que é falso nesse universo pequeno-burguês? A ideia não é muito diferente de Amar, Beber, Cantar, mas Melô é melhor. 

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