A magia de Fellini numa comédia sobre a terceira idade

Filmes sobre a terceira idade espantam o público, embora recebam tratamento diferenciado do cinéfilo, que reconhece como obras-primas irretocáveis dois clássicos do cinema da solidão e da velhice - Umberto D, de Vittorio De Sica, e Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman. O próprio Chuvas de Verão, melhor filme de Cacá Diegues, aborda um pouco esse universo. Chega agora o argentino Elsa e Fred - Um Amor de Paixão, de Marcos Carnevale. O público poderá achar sentimental e até batida essa história sobre uma velha que irrompe como um furacão na vida de um viúvo, oferecendo-lhe alternativas de vida para as quais ele não parecia mais estar preparado.Dito assim, dá a impressão que você já viu esse filme, pois o cinema americano volta e meia se lembra da terceira idade como uma era de sabedoria ou, então, como aquele momento em que homens e mulheres finalmente têm a chance de se redimir de uma vida sem amor. Você assiste a filmes como os da série Dois Velhos Rabugentos, pode até apreciar a química entre Jack Lemmon e Walter Matthau, mas é difícil se emocionar porque são obras que não dizem muita coisa. A idade não significa necessariamente sabedoria ou, quem sabe, a verdadeira sabedoria da vida está em desfrutá-la, mesmo correndo o risco de ser considerado(a) impudente. Era o que fazia a genial Sylvie em A Velha Dama Indigna, que René Allio adaptou de Bertolt Brecht.A velha dama indigna parece ter sido o modelo para o comportamento de Elsa, interpretada por China Zorrilla. Atriz de teatro e cinema, a uruguaia Concepción Zorrilla, que se tornou conhecida como ´China´, esculpiu sua fama por meio de um repertório variado que lhe permite saltar de Brecht a Noel Coward com desenvoltura. A extravagância de Elsa lhe cai como uma luva, mas o filme não impressiona muito, pelo menos até que fique claro o que o diretor Carnevale quer dizer com sua história. Elsa e Fred é menos sobre esse velho de 80 anos que se une a uma mulher de 82 e os dois, você pode perceber, têm a vida pela frente, cheia de promessas e emoções. A paixão do título é pelo cinema e aí Elsa e Fred fica mais interessante.Federico Fellini é a referência de Carnevale, mas, embora o título possa evocar Ginger e Fred - outro filme sobre terceira idade -, é com A Doce Vida que o cineasta constrói sua ponte. Elsa guarda na sala de sua casa a foto de Anita Ekberg na Fontana di Trevi. Seu sonho é refazer o caminho de Anitona, quase 50 anos depois, e isso ela vai fazer graças a Fred. Antes disso, o diretor constrói a cena mais bela do filme, quando Federico Luppi, numa participação especial, como o ex-marido, vai visitar Fred para alertá-lo sobre o risco representado por Elsa. Ele foi traído e abandonado por ela. Guarda um ressentimento. Diz a Fred que Elsa é mentirosa e vive num mundo de fantasia - outra referência a Fellini, que admitia ser um mentiroso sincero, tendo forjado uma biografia fictícia para si próprio.A cena é preciosa. A única coisa que Fred quer saber é se Elsa foi mesmo bela na juventude, como afirma ter sido. O que ocorre é mágico. Só pode ser feito quando um diretor tem um ator como Luppi. Nada além do rosto do ator ilumina a tela. O tempo passa por ele e através dele. É por momentos assim que se pode afirmar - o cinemão investe muito numa estética de efeitos, mas não existe, no cinema (e na vida), efeito maior do que a emoção. Elsa & Fred - Um Amor de Paixão (Elsa & Fred, Esp-Argen/2005). 12 anos. HSBC Belas Artes 1 - 14h30, 16h40, 18h50, 21 (sáb. somente 21). Market Place Cinemark 7 - 14h10, 16h40, 19h10, 21h40 (6.ª e sáb. também 0h10; sáb. não haverá 14h10, 16h40). Reserva Cultural 1 - 13h10, 15h15, 17h20, 19h30, 21h40. Sala UOL - 14, 16, 18, 20, 22 h (sáb. não haverá 16 h). Unibanco Arteplex 8 - 13h30, 15h30, 17h30, 19h30, 21h30 (sáb. não haverá 15h30, 17h30; sáb. também 23h30). Cotação: Bom

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