A máfia sem glamour em "Os Cem Passos"

Como costuma dizer Marco TullioGiordana, todo cineasta, em qualquer trabalho, é contemporâneodo seu tempo. Com isso, quer dizer que a trágica história dePeppino Impastato (Luigi Lo Cascio), morto pela Máfia nos anos70, é ainda atual. Dessa forma, Giordana, autor também doesclarecedor Pasolini - Um Delito Italiano, transpõe para ocinema uma frase conhecida do seu conterrâneo Benedetto Croce,segunda a qual o historiador, ao falar do passado sempre fala,na verdade, do seu próprio tempo. Vendo-se o filme não é difícil descobrir o porquê. Numalinguagem direta, quase televisiva, Giordana flagra a vidamodorrenta da pequena Cinisi, na Sicília, onde pontifica omafioso Badalamenti. Peppino é um jovem como outros, mas emcerto sentido vai além de suas condições. Gosta de se divertir,é revoltado, funda uma rádio livre e nela faz denúncias contraos figurões do local. Resolve candidatar-se a vereador, mas éassassinado antes da eleição. Apresentado no Festival de Cinema de Veneza de 2000,Os Cem Passos ganhou uma verdadeira consagração da platéia,o que é compreensível. Afinal, trata de um problema italianoagudo - a presença do crime organizado no país e suasramificações pelo resto da sociedade. De modo que osacrifício de um jovem, que ousou desafiar uma "ordem"poderosa, teve efeito catártico sobre o público. No entanto, seria o cúmulo do reducionismo supor que ahistória de Peppino Impastato só tenha valor para os italianos.Sua universalidade, aliás, está implícita nas palavras deGiordana. Quando se fala do passado, fala-se para o presente equando se fala de um local fala-se de todos. É um princípio deafinidade que faz com que os dramas dos outros não nos sejamestranhos e vice-versa. Como diz o clichê: não somos ilhas. Nesse sentido, é esclarecedor ver como tudo conduziria ojovem Peppino para o conformismo. Todos, na região, eramdependentes da lei de Badalementi, incluindo o pai do garoto. Adistância entre a casa de Peppino e a de Badalamenti nãoultrapassava os cem passos de que fala o título. No entanto, orapaz se recusou a fazer esse caminho e sofreu asconseqüências. Outro aspecto notável do filme é a maneira seca erealista como Giordana trata a Máfia. Não é algo tão evidentecomo parece. Depois de filmes como os de Coppola e Scorsese, quea par de sua grandeza tratam a organização criminosa de forma umtanto romântica, era necessário voltar um pouco aos fatos eretratá-la de maneira desglamourizada. Essa parece ser aproposta de Giordana, e só os italianos, principalmente os doSul, que sofrem com a presença dessa "buona gente", estão emposição de julgar os malefícios que produz. Há então esse tom documental de Os Cem Passos que,se por um lado é correto, por outro parece também um tantodistante e pouco envolvente. Como se o autor tivesse tantavontade de se fazer entender que resolveu não ousar nem um poucona linguagem usada. Nesse sentido, do ponto de vista estético,falta alguma coisa. Mas essa timidez na forma é compensada pelasinceridade do projeto e pela atuação vibrante do jovem Luigi LoCascio.

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