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'A Luneta do Tempo', de Alceu Valença, é uma ópera popular

Com alma barroca, filme se bifurca em histórias e tempos diferentes

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 18h24

JOÃO PESSOA - A exuberância de Alceu Valença deu o tom festivo na noite de abertura do 9º Festival Aruanda do Audiovisual. Abertura que, na verdade, começou triste e solene com o minuto de silêncio em homenagem ao ex-prefeito Luciano Agra, falecido na véspera. Depois, o cinema lembrou duas grandes perdas de 2014, estas no campo artístico - o documentarista Eduardo Coutinho e o escritor e dramaturgo Ariano Suassuna. Dois gigantes, duas perdas que se podem qualificar como irreparáveis sem medo do lugar-comum. 

Feitas as homenagens, passou-se ao filme, A Luneta do Tempo, um objeto cinematograficamente não-identificado, feito ao longo de anos de trabalho pelo cantor e compositor. Em resposta a uma pergunta do Caderno 2, Valença disse que a história mergulha em memórias da infância e por isso tem um valor afetivo muito grande para ele. "Meu pai chegou a ver o lugar onde Lampião, Maria Bonita e seu bando foram tocaiados, em Angicos. Chegou a enterrar alguns mortos e trouxe como lembrança um chapéu de cangaceiro que pendurou em casa".

E, de fato, A Luneta do Tempo tem Lampião (Irandhir Santos) e Maria Bonita (Hermila Guedes) como personagens principais. Eles são perseguidos pela volante comandada por um militar, Antero Tenente (Servilio de Holanda, do Grupo Piolim). Há os combates, os entreveros entre cangaceiros e tropas e, depois, um Lampião que contempla a eternidade após a sua morte. O filme é uma ópera popular, musicada pelo talento de Alceu Valença.

Surpreendentemente, nota-se um talento que se expande além da música. Como cineasta, Alceu capricha na invenção. Nos enquadramentos inusitados, em planos-sequência muito bonitos. Em soluções visualmente ousadas. Por exemplo, quando Lampião captura Antero, o pendura pelos pés. Durante algum tempo, tudo passa a ser visto pelos olhos do militar, com as imagens invertidas.

Da mesma forma, em paralelo à saga de Lampião, há o aparecimento de um circo, comandado por um suposto marroquino, Nagib Mazola (Ceceu Valença, filho do compositor), que abriga uma cangaceira viúva e a leva para outra parte, com a gratidão de Lampião. As histórias irão se cruzar com esses personagens 30 anos no futuro, quando o filho de Antero Tenente buscar vingança num suposto descendente dos cangaceiros originais.

Construído com alma barroca, o filme se bifurca em histórias e tempos diferentes. Apesar dessa complexidade, Alceu Valença diz que sua história "é tão simples que obedece a lógica aristotélica". Seja. O fato é que a trama é apoiada pela música, que a conduz, e por uma estrutura que dialoga com a da literatura de cordel. Claro que um cinéfilo atilado encontrará em A Luneta do Tempo ecos de Glauber Rocha e, numa referência mais recente, a Baile Perfumado, da dupla Lírio Ferreira e Paulo Caldas, filme que representa o renascimento do cinema pernambucano. São ecos, ressonâncias, numa obra original, apaixonada, irregular aqui e ali (o ritmo cai na segunda parte), mas testemunha de uma paixão e de criatividade impressionantes.

Tanto assim que talvez seja obra única na carreira do autor. Perguntado pelo próximo projeto em cinema, Valença diz que não tem. "Não tenho nada que me apaixone ou obceque no momento e sem paixão não dá para fazer nada", diz. Claro que há também toda a dificuldade em fazer um filme no Brasil. O diretor e sua produtora e mulher, Yanê, queixaram-se dos problemas para captar para um projeto tão ambicioso e até se queixaram de que o filme sofreu uma espécie de "bullying"informal pelo fato de Alceu ser uma superestrela da área musical, mas não ter trânsito no meio cinematográfico. Além disso, sofre as consequências de não ter feito uma projeto certinho e previsível. "As pessoas não podem entrar no cinema esperando ver sempre aquilo que já conhecem", diz. "Precisam ver a obra e o que a obra propõe de novo".

De fato, quem for ver A Luneta do Tempo esperando um cinema convencional, uma história com começo meio e e fim, nessa ordem, poderá sair decepcionado. Quem se entregar ao jogo proposto pelo filme, será recompensado. É uma obra única, em mais de um sentido do termo. O filme estreia em abril no circuito comercial. Virá acompanhado de um CD com as músicas e um livro, sobre os bastidores da filmagem. Pacote completo. 

 

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