A lista de Rosa

Filme 'Outro Sertão' traz imagens em movimento inéditas de Guimarães Rosa

Luiz Zanin Oricchio/ Estadão, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2013 | 13h45

Outro Sertão, das cineastas Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, traz imagens inéditas de Guimarães Rosa gravadas num piloto para a TV alemã, em 1962. Nelas, o escritor mineiro ouve as perguntas em alemão, compreende perfeitamente e as responde em português. A conversa é sobre literatura e Rosa faz várias revelações. Por exemplo, o entrevistador, que conhecia Sagarana, pergunta se ele estava ficando mais sintético com o passar do tempo. Rosa diz que acabava de lançar um livro - Primeiras Estórias -, cujo tamanho reduzido era, não opção estética, mas imposição do jornal no qual os publicava. "Qualquer limitação é estimulante para um artista", diz, rindo.

A entrevista, até agora desconhecida, é a cereja no bolo de um belíssimo ensaio poético e colagem sobre uma fase pouco comentada do autor de Grande Sertão: Veredas - sua estadia na Alemanha, onde exerceu o cargo de vice-cônsul em Hamburgo de 1938 a 1942. O filme é baseado em diários deixados pelo escritor, imagens amadoras da época e documentos encontrados na Alemanha. "Nossa pesquisa durou dez anos", diz Soraia Vilela, uma das diretoras. "E não houve outro motivo para tanta demora senão o fato de que toda pesquisa bem feita exige tempo". O resultado de tanta dedicação deu fruto: 130 horas de material gravado, que tiveram de ser enxugados para os 73 minutos da obra.

As diretoras dizem ter intenção de veicular esse material, seja através de extras de um futuro DVD a ser lançado, seja através de um site, disponibilizando o material a todos os pesquisadores e interessados na vida e obra de Guimarães Rosa.

Há, no entanto, uma ameaça pendente. Como se sabe, os herdeiros de Guimarães Rosa não são famosos pelas facilidades que concedem à veiculação da obra do escritor. Biografias e mesmo estudos literários são embargados, e um clássico do cinema brasileiro como A Hora e a Vez de Augusto Matraga, inspirada em um dos contos de Sagarana, continua no limbo por falta de acordo entre as partes.

As diretoras dizem que os dois ramos da família de Guimarães Rosa foram informadas sobre o filme e mesmo incluídas como colaboradoras, "pois de fato ajudaram na pesquisa num primeiro momento", diz Adriana Jacobsen. Acontece que depois houve uma ruptura e o diálogo foi interrompido. "Quando soubemos que havíamos sido selecionadas para o Festival de Brasília, entramos em contato mais uma vez, mas tudo o que recebemos foi um telegrama do advogado dizendo que a conversa não se realizaria."

A alegação é de que no filme haveria "material íntimo", o que não procede. Pelo contrário, toda a ênfase é colocada na faceta pública de Guimarães Rosa, funcionário do Itamaraty trabalhando na Alemanha em momento histórico particularmente dramático.

Nesse sentido, a ação de Guimarães Rosa revelada em Outro Sertão nada mais faz do que dignificar ainda mais a sua biografia. Num período em que o Brasil ainda era neutro, tornava-se extremamente difícil para os judeus obterem visto para emigrar. A ordem de Getulio Vargas era não desagradar ao governo de Hitler. Havia mesmo restrições à concessão de vistos de turistas, nos casos em que se desconfiava que as pessoas tencionavam emigrar. Enfrentando essas dificuldades, o escritor encontrou brechas nos regulamentos e concedeu muitos vistos que salvaram vidas. Essas pessoas, ou seus descendentes, são entrevistados e reafirmam a gratidão ao escritor. Na verdade, ele instituiu uma verdadeira "Lista de Rosa"em Hamburgo, que ficou conhecia, na época, como a cidade onde o Consulado do Brasil concedia vistos aos desesperados. 

"Por tudo isso entendemos que Outro Sertão seja um filme de interesse no Brasil como no Exterior, em particular na Alemanha", dizem as diretoras. Em especial agora, quando deve sair nova tradução em alemão de Grande Sertão: Veredas, a cargo de Berthold Zilly, que já tem em seu currículo a tradução de Os Sertões, de Euclides da Cunha. As diretoras acreditam que essa nova versão da obra máxima de Rosa venha redespertar o interesse pela sua pessoa na Alemanha.

Como nem tudo são rosas, logo na primeira noite de competição surgiu um grave problema técnico. Depois de três paradas, a sessão de Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry, foi suspensa de vez a pedido da equipe do filme. Problemas com o DCP. Na confusão formada, as acusações eram as de sempre. A produção do filme disse que a cópia estava perfeita. E estava mesmo, pois foi exibida numa sessão impecável em Fortaleza, no encerramento do Cine Ceará. O coordenador do Festival de Brasília, Sérgio Fidalgo, subiu ao palco e disse que o DCP dava sempre problemas e não podia garantir que outros não aconteceriam até o final do evento. Disse ainda que o festival havia exigido o suporte H264, mas, por pressão dos cineastas, havia permitido o DCP. E agora estava arrependido. No cinema, em meio a essa guerra de tecnologias e de siglas, havia muita gente suspirando de saudades do velho 35 milímetros. 

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