EFE/Claudette Barius/Netflix
EFE/Claudette Barius/Netflix

'A Lavanderia’ é um grito de alerta, diz Meryl Streep

Além da atriz, Gary Oldman e Antonio Banderas compõem o elenco do filme, que vai estrear no dia 18 de outubro, na Netflix

Jake Coyle, Associated Press

27 de setembro de 2019 | 10h15

Meryl Streep diz que estamos vivendo um momento de “darwinismo”. Não por acaso, seu filme mais recente, A Lavanderia, sátira de Steven Soderbergh sobre os chamados Panama Papers, começa com homens das cavernas. A atriz considera que esta é uma época em que só o mais forte sobrevive. Daí termos que nos fortalecer para manter nossos princípios, “porque se não os sem princípios assumem a liderança. É isso que vivemos”. Essa preocupação que atormenta Streep, uma das críticas mais abertas do presidente Donald Trump, vem dando forma a seus filmes.

A Lavanderia, como o filme anterior de Streep, o thriller de 2017 sobre a liberdade de imprensa The Post – A Guerra Secreta, que aborda a publicação dos documentos do Pentágono sobre a Guerra do Vietnã, é um grito de alerta.

“Meu cérebro está me cobrando o que é preciso dizer e fazer”, disse Streep. “Tudo que tenho é meu talento para entreter e transmitir algo de forma que a mensagem chegue às pessoas.”

A Lavanderia, que estreia na Netflix em 18 de outubro, é uma das tentativas mais audazes nesse sentido. O filme transforma informações densas e complicadas em uma farsa que rompe a “quarta parede” – a barreira invisível que impede a comunicação direta do ator com o público - e termina com um acalorado chamado às armas.

Livremente inspirado no livro Secrecy World, de Jake Bernstein, A Lavanderia, com roteiro de Scott Z. Burns, deriva de um vazamento do informações ocorrido em 2015 que ficou conhecido como Panama Papers. O chamado Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICJI) analisou 11,5 milhões de documentos, que desmascararam uma rede internacional de empresas fantasmas que escondia bilhões de dólares em paraísos fiscais.

Também parcialmente Inspirado no filme argentino Relatos Selvagens, A Lavanderia é uma versão cômica da evolução do sistema monerário (aí entram os homens das cavernas) na qual se entrelaçam alguns dos mais de 200 mil casos dos Panama Papers.

Gary Oldman e Antonio Banderas são os advogados da empresa Mossack Fonseca, no centro do escândalo, e atuam como narradores, usando smokings e empunhando martínis. Streep interpreta Elen Martin, que navega nas enredadas páginas das empresas fantasmas à procura da seguradora que responsabiliza pela morte do marido em um acidente num navio de turismo.

Soderbergh quis fazer de A Lavanderia uma comédia vibrante sobre um negócio sujo e obscuro. “Cada problema sério que a humanidade enfrenta hoje tem origem em algum tipo de corrupção”, disse ele. “Em 2000, nas 50 pessoas mais ricas da elite financeira eram donas de um terço da riqueza mundial. Agora são donas da metade, o que é insustentável”, acrescentou. “O mundo terá de se reconstruir por um grande acordo, ou então se reconstruirá de um modo menos agradável.”

“Com todo esse dinheiro desviado muitos problemas seriam resolvidos, mas ele está sendo gasto em iates”, disse Streep. Ela e Soderbergh, que deram uma recente entrevista conjunta na apresentação do filme no Festival Internacional de Cinema de Toronto, nunca haviam trabalhado juntos. Mas talvez a parceria fosse inevitável, dada a disposição de Streep de fazer filmes que causem impacto. Já Soderbergh é conhecido como um dos cineastas que trabalham mais rápido e no mês passado os dois fizeram outro filme juntos, Let Them All Talk (Deixe que falem), em apenas 13 dias.

“Mike Nichols [cineasta falecido em 2014] sempre se encantou com o trabalho de Steven e dizia que ‘vocês têm que trabalhar juntos’”,  lembrou Streep. Soderbergh acrescentou: “Não sei por que demoramos tanto, mas estamos tratando de compensar isso”.

Para escrever o roteiro de A Lavanderia, Burns trabalhou estreitamente com Bernstein, jornalista detentor de um Prêmio Pulitzer bastante envolvido na investigação do ICJI. Burns, que costuma trabalhar com Soderbergh (The Informant!, Contágio). Burns sabia que o interesse do diretor só seria atraído por algo ousado, atrevido. Mas se perguntava como Bernestein reagiria ante essa perspectiva.

“Temia que enquanto escrevia ele perguntasse ‘ que você está fazendo com nosso jornalismo?’. Ele nunca perguntou e entendeu rapidamente o que estávamos fazendo”, disse Burns, sentado ao lado de Bernstein, que assentia. “Queríamos mostrar que o sistema financeiro mundial, como está estruturado, tem um efeito adverso para todos”, acrescentou o roteirista.

O roteiro de Burns agradou imediatamente a Soderbergh. O diretor considera A Lavanderia um “ponto culminante”, pois exigiu toda sua experiência de cineasta. Para Streep, o filme “é como se estivéssemos cansados de metáforas. Podemos seguir dando voltas, mas uma hora temos que parar e dizer ‘acorda!’". /Tradução de Roberto Muniz 

Assista ao trailer:

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.