'A Invenção da Carne' oferece viagem existencial

Filme do argentino Santiago Loza acompanha casal sem destino certo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 de novembro de 2009 | 14h41

A Invenção da Carne começa com uma aula de medicina. Olhar distante, María permite que seu sexo seja manuseado pelos alunos, trabalho que lhe rende algum dinheiro. Somente o olhar intenso de Mateo é que lhe desperta atenção. Bastam cinco minutos para que o cineasta argentino Santiago Loza apresente as intenções de seu filme estranho, pouco dialogado e muito sofrido.

 

Eles voltam a se encontrar alguns dias, casualmente em um bar, onde Mateo, que pratica natação e vive apenas com uma mulher paga pelos pais para cuidar dele, convida María a viajar para o interior do país, pois deverá realizar consultas em cidades pequenas. Ela aceita. Na verdade, María não se prende a lugares ou a pessoas, pois oferece seu corpo em troca de qualquer trocado, seja como prostituta, seja como companheira de viagem.

 

Mateo também não consegue lidar com seu corpo, sofrendo surtos inesperados quando dorme em que acorda desesperado, gritando e chorando. Assim, María acredita encontrar a redenção neste jovem que, por outro lado, se revela incapaz de salvá-la das profundezas do seu desespero. A viagem que fazem é silenciosa, o que torna A Invenção da Carne um filme praticamente sem diálogos. Na verdade, a busca é interior, em seu íntimo conflituoso e recheado de dúvidas. Trata-se de um acerto de Loza que, ao se despreocupar em revelar detalhes sobre seus personagens, torna-os importantes apenas pelo que fazem no momento. Daí a profusão de closes em seus atores, muitas vezes desfocados mas sempre carregados de simbolismo.

 

Afinal, María e Mateo buscam o que desconhecem. Mesmo na companhia do rapaz, ela necessita do sexo sujo, praticado com caminhoneiros em banheiros imundos de postos à beira da estrada. E Mateo, apesar da incumbência de curar, não consegue lidar com corpo alheio, que lhe provoca desejos e repulsas. São significativas, aliás, as imagens em que ele, durante as sessões de natação, passe longos momentos submerso, admirando pernas e troncos de bebês e de suas mães.

 

É um recém-nascido, aliás, que vai lhe provocar um surto de loucura – em uma cidade, ele se apodera de um bebê e o leva para o hotel. Denunciado por María, acaba preso. Em A Invenção da Carne, Santiago Loza privilegia pessoas cujas almas são incapazes de lidar com seu limite físico que é o próprio corpo. Uma intranquilidade que só parece ter fim quando finalmente se libertar desse corpo.

 

LIVRO

Outro destaque é o lançamento do livro Os Filmes da Minha Vida (Imprensa Oficial), às 19 h, na Central da Mostra, no Conjunto Nacional. Trata-se de coletânea de depoimentos de personalidades como Carlos Reichenbach, Daniela Thomas, Bruno Barreto, Marco Bechis e Hector Babenco, que revelam os longas que influenciaram sua carreira. As entrevistas ocorreram em 2008 e, neste ano, nova bateria aconteceu, com convidados como Luiz Carlos Merten, crítico do Estado.

 

Serviço

A Invenção da Carne](Argentina, 80 min.)

Espaço Unibanco Pompeia 10 – Hoje, 22 h

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.