EFE / Ernesto Mastrascusa
EFE / Ernesto Mastrascusa

A 'ilha do cinema', sonho de Fidel, García Márquez e Birri, completa 30 anos

Instituição foi projetada para receber alunos de países de América Latina, África e Ásia

Sara Gómez Armas, EFE

15 Dezembro 2016 | 16h06

O projeto de Fidel Castro, Gabriel García Márquez e Fernando Birri de transformar um pequeno povoado a 30 quilômetros de Havana em uma formadora de profissionais do cinema completa 30 anos nesta quinta-feira, 15, com a satisfação de continuar a atrair jovens de todo o mundo.

Cerca de 400 alunos circulam a cada ano entre o curso regular, oficinas e mestrados pela Escola Internacional de Cinema e Televisão (EICTV), inaugurada como "uma ilha cinematográfica" no dia 15 de dezembro de 1986.

"Esta escola é particular. É como estar em um mundo fechado, no qual se vive cinema, se come cinema e se respira cinema", confessou Enia Machado, uma produtora italiana de 35 anos que está na ECITV, localizada em San Antonio de los Baños, um município de 34 mil habitantes, para uma oficina de seis semanas de direção de atores.

Para o egípcio Basel Ramsis, professor de documentários que reside na Espanha, a singularidade da EICTV se mostra evidente.

"O que realmente diferencia esta escola de outras é que se vive o cinema diariamente durante o dia inteiro, ao longo dos três anos do curso. Pode ser considerada uma ilha cinematográfica dentro da ilha maior, que é Cuba", comentou Ramsis.

O líder cubano Fidel Castro, que morreu em 25 de novembro aos 90 anos, projetou essa instituição para receber alunos de países de América Latina, África e Ásia que buscam uma formação acadêmica e prática afastada do "imperialismo cultural" ditado pela indústria cinematográfica dominada por Hollywood.

Em fevereiro de 1985 foram iniciadas as conversas com o escritor colombiano Gabriel García Márquez, que dirigia a Fundação de Novo Cinema Latino-Americano com sede em Cuba, e com o diretor argentino Fernando Birri para dar forma a este projeto que passou a gerar resultados um ano e meio depois.

"Nosso objetivo final é nada menos que conseguir a integração do cinema latino-americano. Simples e desmesurado", resumiu o autor de Cem Anos de Solidão sobre o projeto.

Para Jerónimo Labrada, atual diretor acadêmico e membro da equipe fundadora da instituição, o projeto da EICTV foi "muito inovador e soube manter essa novidade", baseada na ideia de Birri de que "os jovens aprendem fazendo e todos, inclusive professores, aprendemos nesse fazer".

"Uma das coisas mais bonitas dessa escola é que após três anos aqui é criada uma rede entre os alunos, uma irmandade entre gente de diferentes países e que depois, do lado de fora, decidem trabalhar juntos", comentou Labrada.

"O Convento do cinema" foi a forma como Lara Sousa, uma estudante de 25 anos moçambicana do primeiro período, decidiu batizar a escola.

"Compartilhamos tudo, nossa vida íntima está absolutamente relacionada com o trabalho e isso se traduz em algo muito lindo que é uma base de networking para quando sairmos daqui", analisou.

Lara, que estuda documentários, é filha de uma das alunas da primeira turma da EICTV, na qual desde então foram graduados 883 alunos de 60 países em especialidades como direção, roteiro e produção.

"Conhecia a escola porque tem prestígio, me pareceu uma boa oportunidade me formar aqui, mas também viver todas as mudanças que estão acontecendo em Cuba na bolha que é esta escola", afirmou o espanhol Alejandro Pérez, de 31 anos, que em junho se graduará com a meta de fazer um documentário sobre os costumes que unem Cuba e o sul da Espanha.

Além de contar com professores de prestígio que sempre reservam um espaço na agenda para dar aulas nesta escola, grandes cineastas como Francis Ford Coppola, Brian de Palma, George Lucas, Spike Lee e Abbas Kiarostami já elevaram a fama da instituição com cursos e oficinas.


 

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