"A Hora Marcada", no Rio, SP e Brasília

Foram quatro anos de lutas para tornar viável a produção de A Hora Marcada. O policial de Marcelo Taranto estréia amanhã em 18 salas do Rio, de São Paulo, Brasília e Niterói. O diretor está animado. Fez o que considera um produto de qualidade. "O público merece filmes bem-acabados." Acha que A Hora Marcada está nessa categoria. "O exibidor Severiano Ribeiro gostou tanto do filme, no Rio, que nos colocou num ótimo circuito." O repórter observa que é bom ele não alimentar expectativas exageradas - de crítica, pelo menos. "Quem está na chuva é para se molhar", garante Taranto, que está preparado para as críticas mais duras, mesmo que, no fundo, espere mesmo é a adesão do público.A Hora Marcada traz Gracindo Júnior como um empresário poderoso que, logo no começo, ouve de uma mulher misteriosa a frase que é uma sentença - vai morrer em sete anos. A partir daí, ele fica obcecado pela idéia da morte, que irrompe na sua vida por meio de um seqüestro. Taranto não acha que esteja copiando clichês do policial made in Hollywood. Provoca: "Ou você já viu um policial americano que quebra a narrativa no meio para encerrar os personagens no huis-clos que será o túmulo deles?"Além de diretor, ele é co-roteirista e autor da trilha. Aos 44 anos, corpinho de 32, admite que, como o personagem de Gracindo Júnior, é obcecado pela morte. Como expressão da vulnerabilidade do homem, seu mistério o revolta e angustia. Para tratar do assunto, encontrou o parceiro ideal em Moisés Porage, que quase morreu de doença e co-assina o roteiro. Só que Taranto não queria tratar da morte em chave filosófica. Queria fazê-lo por meio de um relato de ação. E queria que o seu filme tivesse uma dimensão social, falando do abismo que existe hoje, no Brasil, entre o materialismo dos poderosos e a miséria dos excluídos.Taranto é o primeiro a admitir que seu filme tem defeitos. Concorda com o que parece uma bobagem - a maquiagem das atrizes no começo é um horror. Não só a maquiagem, mas também a iluminação e a fotografia, que enfeiam Cássia Kiss e Beth Goulart e as transformam em máscaras mortuárias. Apesar disso, Taranto espera que esse primeiro ensaio seja seguido de outros, no rumo daquilo que almeja - uma expressão pessoal. Ex-repórter cinegrafista da Rede Globo, admira Bergman e Visconti, mas também é atraído pelo estranhamento que lhe produz David Cronenberg. São autores. Ele também espera sê-lo, um dia. Foi por isso que fez do cinema seu projeto de vida. Com o curta Ressurreição Brasil, ganhou a Margarida de Prata da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em 1994. Também interpretado por Ester Goés, presente em A Hora Marcada, o curta recria a Pietà para o que se propõe como uma reflexão sobre a dor da mãe-pátria. A Hora Marcada não é bom, mas o diretor que agora erra tem a esperança de acertar no futuro. Não há por que negar-lhe crédito.

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