A história do samba na homenagem a Riachão

Samba Riachão é um documentário que marca a estréia do compositor Jorge Alfredo como diretor de longas. Riachão é uma figura folclórica na Bahia, uma espécie de Grande Otelo do samba. O velho malandro, de 82 anos, criou um tipo característico: boina e terno brancos, toalha pendurada no pescoço sobre pesadas correntes douradas e grandes anéis nos dedos. O filme entra hoje em circuito comercial em São Paulo, depois de passar mais de dois anos circulando por festivais, como o de Brasília, do qual saiu vencedor em 2001, e vai além de ser uma biografia de Clementino Rodrigues, nome verdadeiro de Riachão. Alfredo costura relatos sobre a ascensão do rádio na Bahia e conta a história do samba local, que está na raiz do sucesso da música baiana. Seus pilares, apontados pelo historiador Cid Teixeira, são Assis Valente, Dorival Caymmi, Josué de Barros (o primeiro incentivador de Carmen Miranda) e Humberto Porto (autor da célebre marchinha A Jardineira). Riachão cresceu com o rádio e foi um dos ídolos da infância do diretor. Alfredo usou a questão da origem do samba, que muitos afirmam ser baiana, como provocação para todos os entrevistados - dentre eles Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Carlinhos Brown, Antônio Risério, Tuzé de Abreu, que recheiam o documentário com declarações esclarecedoras. É a parte mais interessante do filme. "Tive a ousadia de conseguir pinçar coisas de um depoimento que influenciava o outro. Só eu sabia aonde queria ir", diz Alfredo. Pelo histórico de privações de Riachão, uma biografia poderia cair facilmente na pieguice que tange, por exemplo, a seqüência em que o compositor chora diante do retrato da mãe, cantando um samba que fez para ela. "Quis mostrar aquela figura que me impressionou, do poeta popular, do cronista, quase um clown, que o tempo todo faz representação dele mesmo", afirma o diretor. Os antigos chamavam de riachão todo menino metido a valente, que vivia a arrumar encrenca. Clementino Rodrigues era "cheio de rojão" e adotou o apelido quando entrou "para a orgia". O samba, que ele diz o tempo todo "receber de Jesus", é valente, buliçoso, alegre. "Na Bahia não se faz mais samba bom, hoje só tem ritmo. Misturam muito e não têm mais aquele sentimento na composição", diz hoje Riachão.

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