"A Guerra do Ópio" estréia com 2 anos de atraso

É o filme mais caro da história do cinema chinês, mas os US$ 15 milhões dispendidos na produção de A Guerra do Ópio, que estréia este fim de semana, são pouco, comparados aos salários milionários dos astros de Hollywood (Mel Gibson e Tom Cruise não ganham menos de US$ 20 milhões e ainda têm direito a participação nos lucros) ou aos US$ 200 milhões consumidos por James Cameron para afundar o Titanic. O custo elevado, para os padrões chineses, atraiu uma atenção especial sobre A Guerra do Ópio. Mas o filme do veterano Xie Jin não merece atenção só por isso. O que realmente faz desse filme uma experiência interessante é o deslocamento de uma maneira de focalizar a história oficial. Xie Jin conta, do ângulo dos chineses, um episódio bem conhecido pela ótica do Ocidente - a guerra do ópio no século passado, que culminou com a entrega de Hong Kong aos britânicos. Não por acaso, o filme foi feito para estrear em julho de 1997, exatamente no histórico dia em que Hong Kong foi devolvida à China. Não deixa de ser, sob certos aspectos, um filme ´oficial´, de celebração, mas não é o infame Independência ou Morte, de Carlos Coimbra, realizado para celebrar, no Brasil, o sesquicentenário do Grito do Ipiranga. Embora pouco conhecido no Brasil, Xie Jin é um diretor de prestígio, internacionalmente premiado por filmes como N.º 5 Woman Basketball Player e Sisters on Stage (os que mais circularam no Ocidente). Ele fez seu filme com olho para o detalhe. Colocou de pé um épico luxuriante, com muitas cenas grandiosas, mas tenta equilibrá-las com o intimismo do conflito entre os personagens que pertencem à grande história. Há quase dois anos A Guerra do Ópio estreou no Rio de Janeiro. Chega com atraso a São Paulo, mas a distribuidora Top Filmes explica que foi difícil achar um nicho do mercado para produto tão diferenciado - um épico que, na verdade, é filme de arte ou, pelo menos, é assim vendido pela empresa. O quadro retratado no filme é a China de 1838-40. Começa em Guangzhou, no dia em que o enviado especial do imperador chinês ordena a execução, por enforcamento, de numerosos vendedores de ópio. Lin Xezu tenta combater a praga da droga que enfraquecia o império. Ganhou o apoio do imperador Daoguang, mas provocou a ira dos ingleses. Explica-se: ao ordenar a queima de 20 mil caixas de ópio, Lin Xezu não fez apenas a primeira queima de drogas no mundo, como ação coercitiva (ou repressiva). Ele foi acusado também de atentar contra interesses e propriedades do Reino Unido. Desencadeou uma guerra, já que os ingleses, que haviam comprado desses vendedores todo o lote de ópio, acusaram-no de atentar contra a sua propriedade. Navios de guerra do Império Britânico sitiaram diversas cidades costeiras e as forças inglesas tomaram o rumo de Beijing. O imperador destituiu Lin Xezu e nomeou Qi Shan para tentar a negociação com os invasores. Qi Shan fez concessões demais. Cedeu Hong Kong aos ingleses, o que deixou o imperador mais enfurecido ainda. Qi Shan foi enviado à prisão e a China assumiu, tardiamente, a decisão de enfrentar os ingleses. As forças chinesas conseguiram impor pesadas perdas aos invasores, mas perderam a guerra.Cuidado visual - É nesse quadro, contando esses eventos, que se desenrola A Guerra do Ópio. O filme tem um visual muito cuidado, com belíssima direção de arte que se manifesta em cenários e figurinos de encher os olhos. Só que Xie Jin não quis fazer um filme só para os olhos. Quis fazer um filme também para o olhar mais atento, alternando, com as cenas de multidão e batalha, os movimentos mais secretos que revelam os homens - Lin Xezu, Qi Shan e Daoguang. Na verdade, o que Xie Jin quer é discutir o papel de cada um deles no episódio. Mostrar o homem perante a história. Por isso mesmo, toda a construção dramática de A Guerra do Ópio converge para o encontro entre Lin Xezu e Qi Shan. Desterrado para uma região distante da China, o primeiro encontra o segundo como prisioneiro. E Qi Shan lhe diz que os nomes dos dois ficarão na história, mas enquanto Lin Xezu será lembrado por sua luta, ele, Qi Shan, será execrado para todo o sempre como traidor, por ter cedido aos invasores. Nesse momento Xie Jin apenas toca no que poderia ser o grande tema de A Guerra do Ópio - a tragédia de homens que não estão à altura do seu papel na história. Talvez esse tema fosse mais consistente na versão do diretor, mas ele teve de fazer numerosos cortes para adequar o filme à duração de 120 minutos (na verdade, para distribuição no Ocidente, ele deveria ter cortado até mais - para 100 minutos, mas recusou-se, dizendo que A Guerra do Ópio ficaria incompreensível). Certos hiatos da narrativa poderão ser creditados, assim, a essa reedição. Cabe ressaltar que, embora Xie Jin leve o crédito de direção, não trabalhou sozinho. A diretora de Hong Kong Ann Hui e o diretor de Taiwan Lee Hsing colaboraram em diversas cenas. Ela, sobretudo, dirigiu a maioria das espetaculares cenas de ação.

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