A Grande Viagem mostra delicada relação entre pai e filho

Janela aberta para a realidade - uma de suas tantas definições possíveis -, o cinema pode fornecer ao público as ferramentas para uma correta interpretação do mundo em que vive. O cinemão, leia-se Hollywood, tenta fazer crer que os filmes são só diversão, preferencialmente acompanhada de pipoca e refrigerante, mas há todo um cinema alternativo à dominação dos corações e mentes que acredita na obra cinematográfica como instrumento de conhecimento e conscientização. Há pouco, no Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, o criador do evento, Amir Labaki, colocou o foco da mostra paralela Estado das Coisas num triste fenômeno contemporâneo - sob o rótulo de A Era do Medo, ele reuniu um conjunto de documentários que discutem o terrorismo e suas implicações. Não propriamente o terrorismo, mas as diferenças culturais entre as tradições judaico-cristãs do Ocidente e o mundo islâmico estão no centro de A Grande Viagem, filme do diretor marroquino Ismaël Ferroukhi, que estréia hoje na cidade. Você viu ontem, no jornal O Estado de S.Paulo, as fotos de jovens manifestantes protestando contra a lei do primeiro emprego na França. Você deve lembrar-se de O Ódio, de Mathieu Kassovitz. No competitivo e discricionário mundo globalizado, há todo um contingente relegado à periferia não apenas de uma grande cidade como Paris, mas daquilo que se chama ?o sistema?. Nas sociedades desenvolvidas, são aqueles que representam o medo do outro - negros, árabes. Tudo se resolve no mercado, é o lema corrente, mas é preciso muita ingenuidade para acreditar que, lá como aqui, os jovens de periferia têm as mesmas oportunidades no mercado de trabalho. Essas oportunidades não existem nem entre os egressos da classe média, cada vez mais classe baixa, e os integrantes da elite. Este é o tema subjacente de A Grande Viagem. A história trata de relações familiares, entre um pai e um filho. A própria idéia da viagem carrega uma dimensão metafórica - quando estão em lugar nenhum, na estrada que representa a vida, os personagens têm mais facilidade para se revelar, em todas as suas contradições. A casa seria um espaço muito reservado, interiorizado. A viagem abarca o mundo. Na trama de Ismaël Farroukhi, o pai, um velho de origem islâmica que vive na França, propõe ao filho caçula que o acompanhe numa viagem de carro a Meca, na Arábia Saudita. A idéia do diretor é relativamente simples - o pai, interpretado por Mohamed Majid, quer voltar às origens, um pouco porque identifica a proximidade da morte. O filho, Reda (Nicolas Cazalé), o acompanha de má vontade em sua peregrinação. Reda não segue a religião, representa uma nova geração de muçulmanos que quer se integrar a uma sociedade que, no fundo, o rejeita. Ambos falam línguas diferentes, mesmo quando se expressam no mesmo idioma, travando-se aquilo que se define como um diálogo de surdos. Nenhuma das partes quer ouvir a outra. Poderia ser uma história de ódio, na qual as duas partes chegassem a um divórcio irremediável, pai e filho transformando-se em desconhecidos e renegando-se, mutuamente. Não é o objetivo do cineasta marroquino. Seu filme visa ao entendimento, o diálogo. Apesar das diferenças, pai e filho vão aprender a se conhecer (e respeitar). O cinema conta muitas histórias de famílias que se destroem, reconstroem. Gente que apóia, que oprime. O tema é vasto. A família não é só a célula sobre a qual se constrói a sociedade. O rei do melodrama, Douglas Sirk, gostava de lembrar que, na tragédia grega, tudo se passa em família - sendo que a família é idêntica ao mundo, vira o símbolo desse mundo. A Grande Viagem (Le Grand Voyage, Fr-Mar/2004, 108 min.). Drama. Livre. Reserva Cultural 2 - 13h20, 15h30, 17h40, 19h50, 22 h (5.ª, sem sessão).

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