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A grande novidade de 'Independence Day' é ver os gays vencendo a guerra

Bill Pullman e o diretor Roland Emmerich estão a postos no novo longa

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2016 | 04h00

Bill Pullman desembarcou no fim da tarde da última quarta-feira em São Paulo, procedente de Los Angeles. Pediu alguns minutos para se refrescar, no hotel em que se hospedou nos Jardins, e logo em seguida já estava conversando com o repórter. Sim, ele está contente de voltar ao Brasil. “Há 20 anos, estive aqui para promover Independence Day. Foi tudo muito louco, muito corrido. Estava visitando vários países da América Latina, mas a première brasileira me marcou. Arranjaram duas garotas muito bonitas que me acompanharam no tapete vermelho.” Bill está de volta agora ao País com a continuação, Independence Day - O Ressurgimento. Os ETs voltaram, mais belicosos ainda. Sobre o papel icônico como presidente dos EUA, ele comenta. “Sou agora um presidente aposentado, mas ainda estou pronto para a luta. Mas o novo filme é sobre a nova geração.”

O primeiro filme sobre a invasão da Terra por alienígenas marcou época. “Roland (Emmerich, o diretor) fez um filme aterrorizante e divertido. Como já somos amigos, ele me deixou encontrar com os roteiristas e palpitar na trama. O encontro do ex-presidente com Jeff Goldblum foi ideia minha. Faz avançar a história e dá credibilidade a ambos.” A fantasia de Emmerich - o mundo unido sob a bandeira dos EUA - é a utopia de um americanófilo, mas ele observa: “Muito da grandeza da Hollywood clássica foi construída por imigrantes que sonharam os EUA.” Sobre sua carreira, comenta: “Fiz comédias, filmes noir e de catástrofe. Fiz até um grande filme de arte, Estrada Perdida. David Lynch é um grande diretor que mobilizou sua equipe para dar o melhor de si.”

Da política fictícia para a do mundo real. E Donald Trump, o candidato republicano à Casa Branca? “Às vezes, tenho a impressão de que existem duas Américas. Ele representa a retrógrada. O mais assustador é que tem respaldo de muita gente para seu discurso racista e ofensivo.” De longe, Pullman acompanha a política brasileira. “É fascinante. Dilma traída por seu aliado. Como se diz Temm, Temer? Dava um filme muito interessante.” Bill participa hoje de um duplo formado pelos dois filmes no Allianz Park. Entre ambos, desfila no tapete (azul) e faz um discurso. O repórter quer saber o que ele acha de Emmerich, gay assumido, ter colocado pares gays entre os que combatem a nova ofensiva dos ETs em O Ressurgimento. “Brent (Spinter) faz um grande papel. Acho positivo que Roland use seu prestígio na indústria para discutir esses temas. Ainda existe, em muitos Estados, rejeição ao casamento gay na América. É ultrajante.”

Havia palmeirenses revoltados - onde se viu ter de antecipar jogo para que o Allianz Park sedie o evento Independence Day? Mas é justamente isso que está ocorrendo nesta quinta, 23, às 19h (ingressos de R$ 90 a R$ 140). O estádio do Palestra Itália recebe o ator Bill Pullman, que fez o presidente dos EUA no primeiro filme, há 20 anos, e agora, na continuação, continua sendo um herói, como o público poderá confirmar em Independence Day - O Ressurgimento. O ator vai falar com a plateia no intervalo entre os dois filmes, que serão exibidos nesta quinta no Allianz Park. Em 1996, Pullman veio ao Brasil para promover o 1 e está de volta para divulgar o 2.

Quando fez o primeiro Independence Day, o alemão Roland Emmerich, nascido em Stuttgart, em 1955, já tinha no currículo fantasias científicas como Estação 44, Soldado Universal e Stargate. Depois, consolidou-se na posição de Sr. Desastre - hecatombes são com ele mesmo, em filmes como 2012, O Dia Depois de Amanhã e 10.000 a.C. Em O Ataque, mostrou um ataque terrorista à Casa Branca, que já havia destruído no primeiro Independence Day. Os críticos costumam bater duro em Emmerich, mas há que reconhecer que ele é duplamente um autor. O tema da relação pai/filho percorre sua obra, como a utopia que ele tenta sempre construir. Um mundo sem guerra, de paz e prosperidade, sob a bandeira dos EUA. A meta de Emmerich é deixar claro que ter vindo ao mundo na Alemanha foi um acidente de nascimento. Nenhum diretor nascido nos EUA é mais ‘americano’ - de coração - que ele.

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O curioso é que Emmerich faz esses filmes gigantescos em Hollywood, onde o cinema de ação é sempre uma celebração do macho. E ele é gay, assumido. A festa de lançamento de 2012 em Cancún foi uma celebração LGBT que os organizadores da Parada Gay de São Paulo sonhariam encenar na Av. Paulista. No ano passado, Emmerich fez Stonewall - Where Pride Began. Onde o orgulho começou. Saído do armário, Emmerich tem feito por avançar a diversidade. Seu cinema é grande, quanto aos meios. Tamanho é documento. Na saída da cabine de Independence Day - O Ressurgimento, um crítico dizia bem alto, para quem quisesse ouvir, que o filme era só mais do mesmo, mas maior. Como não é verdade, talvez se deva esquecer por um momento o grande e pensar no ‘pequeno’.

Roland Emmerich tem o maior desprezo por super-heróis. Já afirmou várias vezes detestar ‘essa gente de capa’ que voa. Seus heróis são sempre improváveis. Nunca houve tantos pares gays num épico como O Ressurgimento. É deles que depende - ficcionalmente - a salvação da Terra. Um cientista que não dava a menor pinta no primeiro filme - o Dr. Okun de Brent Spiner, encarregado da investigação da área 51 - sai do coma, e do armário, na mesma hora. Acorda gay e com direito a um companheiro que rega as orquídeas em seu quarto de hospital e até tece uma manta para mantê-lo aquecido. Bem romântico. O brucutu africano - Dikembe - ganha um admirador no assessor americano que pega em armas só para ficar a seu lado. Dikembe tem de conter os arroubos do aspirante a namorado. E ah, sim, até os bravos pilotos, os rapazes destemidos que amam as garotas descoladas (e vice-versa), também ficam se declarando o tempo todo, mas, claro, são viris. Amor de macho. Liam Hemsworth sempre protegeu o amigo Charlie, é só isso.

Ambos podem trocar juras de amor eterno, mas tem cada qual sua garota para mostrar que são saudáveis. Jesse Usher, o filho (enteado) de Will Smith, é um devotado filho da mãe e desestrutura-se quando ela... Vejam o filme para saber o que ocorre. O importante é que esse grupo heterogêneo, compondo uma espécie de choque geracional - Ressurgimento, o título, aponta em sentido duplo para a nova geração -, está a postos e não surpreenderia se, daqui a mais 20 anos, num eventual terceiro Independence Day, surgisse um presidente gay. No atual, a presidente é uma mulher (Hillary para presidente?) que toma uma ou duas decisões equivocadas e paga por isso. Como os ETs são comandados por uma fêmea, antes que você acuse Emmerich de qualquer coisa vale atentar que ele cria duas mocinhas. A filha de Bill Pullman e a garota chinesa. A cena em que Travis Tope, o Charlie, vê a segunda sair do jato e sacudir a vasta cabeleira é um sonho de adolescente. Mas é como se diz - super-heróis (seus fãs?) são eternos adolescentes. Menos nos filmes de Christopher Nolan e Zack Snyder, os grandes.

 

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