Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'A General' encerra Mostra de Cinema de SP com música ao vivo executada pela Orquestra de Heliópolis

Robert Israel é autor da trilha do clássico do cinema mudo

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2016 | 05h00

Robert Israel está encantado com os jovens músicos da Orquestra Sinfônica de Heliópolis. “Você é daqui, sabe das dificuldades que eles enfrentam, num meio marcado por dificuldades econômicas e sociais. Mas são muito talentosos e possuem algo muito importante: entusiasmo, vontade de fazer. Muitos deles poderão chegar a ser grandes profissionais e, se não conseguirem espaço no Brasil, deveriam tentar o exterior.” E Israel prossegue: “Pode ser que a Sinfônica de Berlim ou a de Nova York apresentassem performances tecnicamente mais apuradas, mas o que o público vai ver é condizente com o próprio filme, uma vitória da afirmação do espírito humano”.

O compositor e regente refere-se à apresentação do filme de encerramento da 40.ª Mostra. A General terá sessão ao ar livre na noite de quarta, 2, após a cerimônia de premiação, no Parque do Ibirapuera. Será a terceira vez que a orquestra do Instituto Baccarelli se apresenta na Mostra. As anteriores foram durante a 39.ª Mostra, ano passado. A primeira, no próprio Ibirapuera, sob a regência do maestro norte-americano David Michael Franck, durante a exibição de Meu Único Amor. A segunda, na Sala São Paulo, após a projeção de Tudo o que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado, que dramatiza a experiência de criação da própria orquestra. Desta vez, ela volta ao parque, sob a condução de Robert Israel, para apresentar a nova trilha que o maestro e arranjador compôs para o clássico de Buster Keaton e Clyde Bruckman, de 1926.

Israel considera-se “lucky”, privilegiado. “Em 2002, fiz uma primeira partitura para A General, mas foi uma coisa pequena, para oito músicos apenas.” Foi no lançamento das versões restauradas de clássicos de Buster Keaton. Como A General era de seus filmes mais conhecidos, os responsáveis pela coleção preferiram investir em outros títulos. A General foi o filme que mais vendeu e Israel foi cooptado a compor nova trilha – que vai apresentar pela primeira vez em São Paulo. Há um culto ao filme. Nos anos 1970, ao fazer a apresentação de A General num canal aberto de TV dos EUA, ninguém menos que o grande Orson Welles disse que era uma das grandes comédias do cinema e o maior filme sobre a Guerra Civil norte-americana. Exatamente 90 anos depois, a obra-prima silenciosa encerra, em alto estilo, a Mostra que já apresentou outra visão daquela guerra, com O Nascimento de Uma Nação, de Nate Parker.

A General conta a história de um maquinista de trens no Sul dos EUA. Ele tem dois amores – a namorada, que se chama Annabel, e a General, que não é senão a locomotiva sob sua responsabilidade. Buster Keaton, que faz o herói, resolve se alistar na Guerra, mas o Exército o recusa, porque é mais importante tê-lo como maquinista. A garota rompe com ele, porque pensa que é covarde. A General é sequestrada por espiões nortistas (com Annabel dentro!) e Keaton parte desesperado para resgatar as duas. O filme é uma obra-prima de humor. Keaton, o homem que nunca ria, faz toda uma coreografia correndo no teatro do trem.

Israel mostra para o repórter, no laptop, a partitura lírica que criou para a cena. “Agora veja a mudança de tom”, adverte. Na tela, entra outro trem perseguindo a General. A música torna-se de suspense. Para servir ao filme, Israel muda. Admirador do cinema mudo, diz que o desafio é sempre ajustar-se ao que já é perfeito. “Confesso que já vi A General centenas de vezes. Encanta-me a maneira como a histórias é contada. Não tem um só frame supérfluo. E é engraçada, sempre.” Servir à imagem sem se tornar uma muleta nem exagerar na emoção. É o que você vai ver/ouvir hoje à noite. Clyde Bruckman, o codiretor, era depressivo. Marginalizado na indústrias, perdeu espaço. Matou-se no banheiro de um restaurante, quando não tinha dinheiro para pagar a conta. “Um homem com essa história fez um filme que não perdeu a capacidade de encantar.”

DESTAQUES

El Olivo

Atriz mítica, a espanhola Iciar Bollaín estreia na direção com um filme escrito por seu marido, Paul Laverty. E é um filme delicado, misterioso, sobre a dedicação de uma neta ao avô. Ele parou de falar, de comer e ela acha que só poderá trazê-lo de volta à vida se recuperar a oliveira que a família vendeu, contra a vontade dele.

Os Demônios

Famoso pelos documentários, o canadense Philippe Lesage estreia na ficção com um filme ‘perturbador’. Em Montreal, cidade aterrorizada por uma onda de sequestros de meninos, garoto de imaginação fértil libera seus demônios, que se convertem nos do mundo real. 

Marguerite e Julien

A francesa Valérie Donzelli conta uma história de amor proibido. Um casal de irmãos. O tabu do incesto desafia os códigos familiares e sociais.

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