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A força do cinema de Luchino Visconti

Diretor italiano nasceu há 110 anos e deixou legado importante para a história da sétima arte; veja galeria de filmes

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2016 | 11h53

Completaram-se em março, dia 17, 40 anos da morte de Luchino Visconti. Nesta quarta, 2, são os 110 anos de nascimento do grande diretor. Luchino Visconti! Neste mundo que vive uma onda de conservadorismo - de direitização -, ele virou um exemplo a ser rejeitado, quase uma excrescência. Foi o que declarou, numa entrevista por telefone, Roberto Faenza, diretor de Páginas da Revolução, que virá ao Brasil para o Festival de Cinema Italiano de São Paulo, ainda neste mês. Repetiu-o, aqui mesmo, Marco Bellocchio, homenageado da Mostra que vai chegando ao fim.

A Itália da operação Mãos Limpas tem mais orgulho de seu passado fascista que dos grandes autores de esquerda. Pier Paolo Pasolini é o único que se mantém, por sua vocação polemista. Visconti incomoda. O Conde Vermelho - aristocrata de nascimento, fez-se comunista por opção ideológica. Palmiro Togliatti, o lendário dirigente do PCI, Partido Comunista Italiano, o considerava o maior dos autores, e O Leopardo, de 1963, o maior dos filmes. Pasolini era o indesejado, por sua homossexualidade escandalosa - nos tempos em que isso era considerado desvio ideológico e comportamental.

Visconti foi decisivo na eclosão do neorrealismo, ao qual deu títulos fundamentais - Obsessão, La Terra Trema. Nos anos 1950, percebeu que a Itália estava mudando e o movimento também tinha de mudar. Seu temperamento clássico levou-o a abraçar a História e o melodrama - Sedução da Carne, para Bellocchio, é o filme perfeito de Visconti. Vieram depois Rocco e Seus Irmãos, O Leopardo e Vagas Estrelas da Ursa. Com Os Deuses Malditos, de 1969, inicia-se a fase alemã - Os Deuses Malditos, Morte em Veneza e Ludwig, a Paixão de Um Rei. Será que Visconti antecipava o que ia ocorrer com seu legado - em Violência e Paixão, de 1974, o 'Professore' (Burt Lancaster) grita. "Não sou um reacionário." Talvez fosse o próprio Visconti falando.

Visconti essencial

Obsessão, de 1942. 

Livre adaptação de O Carteiro Bate Duas Vezes, do escritor norte-americano James Cain. Mulher coopta estranho para matar o marido.O filme antecipa o neorrealismo.

La Terra Trema, 1948. 

A tragédia dos pescadores sicilianos, a histórias de uma família. Monumento neorrealista, mas o esteticismo de Visconti torna o filme diferente das demais obras-primas do movimento que colocou na tela a Itália derrotada na guerra.

Sedução da Carne/Senso, 1954. 

Condessa trai sua classe por amor a oficial austríaco, durante as guerras do Risorgimento, no século 19. Um suntuoso melodrama, com direito a cenas de batalhas e de ópera.

Rocco e Seus Irmãos, 1960. 

A desagregação de uma família na cidade grande. Cinco filhos, cinco destinos. O embate se dá entre Simone, que se corrompe; Rocco, o íntegro, mas cuja bondade precipita a tragédia; e Ciro, operário especializado, único com consciência de classe (proletária). Filme operístico, com interpretações geniais de Katina Paxinou (a mãe) e Annie Giorardot (a prostituta Nadia).

O Leopardo, 1963. 

A Itália do Risorgimento, a nobreza do príncipe Salinas (Buret Lancaster). Seu sobrinho, Tancredi (Alain Delon), diz a frase chave - 'As coisas precisam mudar para que tudo continue o mesmo." O príncipe dança com Angelica Sedara (Claudia Cardinale, deslumbrante) e sela a união de sua classe com a burguesia ascendente. O mundo muda. Será? Palma de Ouro em Cannes.

Vagas Estrelas da Ursa, 1965. 

Título de poema de Giacomo Leopardi para uma livre adaptação de Electra. Sandra (Claudia Cardinale) e sua relação tortuosa com a mãe, que entregou o marido (seu pai) na guerra. Leão de Ouro em Veneza.

Os Deuses Malditos, 1969. 

Uma família poderosa sob o nazismo. Seus crimes permanecem impunes. A ópera cruel de Visconti.

Morte em Veneza, 1971.

Adaptação do livro de Thomas Mann. A paixão platônica de Dirk Bogarde pelo adolescente Tadzio (Bjorn Andresen) numa Veneza decadente, consumida pela peste. Um dos filmes mais pessoais do autor, que reflete sobre a própria homossexualidade. Virou um de seus filmes mais cultuados.

Violência e Paixão, 1974. 

O isolamento do 'Professore' (Burt Lasncastere) é rompido pela chegada de uma família de ricaços fascistas. O testamento do artista, seu desencanto por um mundo que se tornaria cada vez mais conservador.

 

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