"A Fera da Guerra" mergulha nas trevas

Como ele era bom! Kevin Reynolds virou um caso do cinema americano com o fracasso monumental de Waterworld. O épico das águas com Kevin Costner foi um fiasco na bilheteria. Poderia, mesmo assim, ser um fracasso respeitável, mas os críticos, com razão, caíram matando. Costner insistiu e fez depois, como ator e diretor, O Mensageiro, que era pior ainda. Sua carreira nunca mais se recuperou. Era um astro, hoje é Kevin quem? O pior é que, na queda, arrastou o outro Kevin, o Reynolds.Fizeram juntos três filmes: Fandango, Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões e Waterworld. O primeiro marcou a estréia do diretor. No segundo, ele fez do lendário Robin Hood um herói esquerdista: não era ruim, mas a versão dos anos 30, com Errol Flynn, continua a melhor. Com o fracasso de Waterworld, a carreira de Reynolds saiu dos trilhos e ele ainda fez um policial com Samuel L. Jackson (Código 187), mas a grande fase passou. A grande fase, na verdade, resume-se a um só filme - justamente A Fera da Guerra, que já está nas locadoras, em DVD.É um filmaço de ação. A história do tanque russo perdido no deserto do Afeganistão, em 1981, é tão eletrizante que você é capaz de duvidar que sua origem seja uma peça de teatro de Bill Bushill, adaptada por William Mastrosimine. Chama-se Nanawatai e a palavra significa clemência e proteção, mesmo ao pior inimigo, no código de honra muçulmano. Só para constar: com direção de Peter Macdonald, Sylvester Stallone ambientou nessa mesma guerra o terceiro filme da série Rambo. Como Rambo 2 - A Missão de George Pan Cosmatos, e até de forma mais radical, Rambo 3 é uma das obras emblemáticas da era Reagan, em que Stallone exorcizava os vilões soviéticos (pois naquela época ainda existia a União Soviética, arquiinimiga da América).A diferença que existe entre Rambo 3 e A Fera da Guerra é a que separa uma aventura fantasiosa e propagandística de um mergulho profundo no coração das trevas. Um entusiasta do filme, Edmar Pereira, gostava de dizer que Reynolds fazia esse mergulho sem os suportes tradicionais do discurso nem da alegoria. O início é chocante. Reynolds abre A Fera da Guerra num povoado afegão, onde a vida parece ter parado no tempo. Entra em cena a truculência tecnológica contemporânea. Tanques russos contra animais e mulheres, soldados altamente treinados contra camponeses maltrapilhos - mas também armados e dispostos a matar ou morrer.É nesse quadro que um dos tanques se extravia dos demais e passa a ser perseguido pelos guerrilheiros mudjahedins. É fácil ver em A Fera da Guerra a representação da velha saga bíblica de David e Golias, mesmo que o David moderno, o grupo de guerrilheiros, use uma poderosa bazuca RPG, roubada ao inimigo e que eles não sabem manejar muito bem. A hostilidade do cenário externo é ampliada pela fúria das mulheres muçulmanas, que bradam por badal (vingança). E há, claro, as divisões dentro do tanque.George Dzunza é o militar que aos 8 anos já combatia os nazistas e agora não hesita em matar o colaborador afegão, que acredita na invasão soviética como caminho para a modernização de seu país. O comandante também investe contra o jovem subordinado (Jasion Patric), cujo pecado é pensar. O choque é entre o código insano do militar e o nanawatai. Poderia ser só um panfleto anti-soviético e seria, se fosse um filme de Stallone. É muito mais: uma obra poderosa capaz de satisfazer ao espectador que busca a ação e o público mais sofisticado que prefere a reflexão. O disco digital traz, como extras, notas sobre o elenco e o diretor.A Fera da Guerra (The Beast of War). EUA, 1989. Direção de Kevin Reynolds, com Jason Patric. DVD da Columbia, nas lojas.

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