AFP PHOTO /RKO RADIO PICTURES
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‘A Felicidade Não Se Compra’, filme de Frank Capra, completa 75 anos

Karolyn 'Zuzu' Grimes reflete sobre o filme que demorou, mas mudou sua vida

Donald Liebenson, The Washington Post

18 de dezembro de 2021 | 07h00

A Felicidade Não Se Compra, filme de Frank Capra que é uma celebração da fé, da família e da comunidade e que neste mês completa 75 anos de lançamento, é um daqueles clássicos indeléveis do cinema em que a questão não é saber se você já assistiu, mas quantas vezes assistiu.

Pelas suas contas, Karolyn Grimes, 81 anos, viu mais de cem.

Não é de surpreender: Grimes é uma dos cerca de dez membros sobreviventes do elenco e, nesta época do ano, disse ela, sua agenda está “cheia, cheia, cheia” de aparições em mostras, programas de Natal, convenções de memorabilia de filmes e, o mais gratificante para ela, o festival anual A Felicidade Não Se Compra em Seneca Falls, Nova York, ao qual ela comparece há quase duas décadas.

Seu nome talvez não seja muito conhecido e, como ela se aposentou das telas ainda adolescente, não é provável que ela seja reconhecida em público. Mas, quando as pessoas descobrem quem ela interpreta no filme, “seus rostos se iluminam”, disse ela.



Grimes interpretou Zuzu, a filha mais nova de George Bailey, a “biscoitinho de gengibre” que, no clímax profundamente comovente do filme, diz talvez sua frase mais citada: “Olha, papai, o professor diz que toda vez que um sino toca, um anjo ganha asas”.

“Eu não tinha ideia de que essas palavras seriam tão especiais para tantas pessoas”, disse ela. “Estou emocionada por tê-las dito e por fazer parte da cena e do filme”.

O filme ocupa perenemente o primeiro lugar nas listas dos maiores clássicos de Natal de todos os tempos, sejam os melhores 40 (Vulture), 60 (Esquire), 65 (Good Housekeeping) ou 100 (IMDb). Para quem não o viu centenas de vezes, James Stewart estrela no papel de George, um bom homem no limite de suas forças, cujo anjo da guarda lhe mostra uma visão aterrorizante de como teria sido a vida na bucólica cidadezinha de Bedford Falls se ele nunca tivesse nascido.

Grimes tinha 6 anos quando conseguiu o papel de Zuzu. Não foi uma conquista sem seus próprios dramas. Ela estava na sala de espera com outros pais e suas filhas quando uma das mães “acidentalmente” derramou café no vestido de Grimes pouco antes de ela entrar para a entrevista.

“Talvez fosse intimidante para algumas meninas, mas me deu algo para falar”, disse ela. Capra, que “escolheu a dedo cada pessoa naquele filme”, segundo Grimes, a contratou.

Embora tivesse outros créditos notáveis em filmes como Um Anjo Caiu do Céu, outro clássico do Natal, e o faroeste de John Wayne Rio Grande, ela deixou Hollywood para trás depois que sua mãe morreu quando Grimes tinha 14 anos. Ela perdeu o pai um ano depois. Um tribunal ordenou que ela fosse enviada para Osceola, Missouri, para viver com um tio e sua esposa instável, que, disse Grimes, eram fanáticos e não deixavam seu novo fardo assistir a filmes, cantar e dançar. Seria como crescer sob os cuidados do Senhor Potter, o vilão de A Felicidade Não Se Compra, que é a ruína da existência da família Bailey.

Grimes nunca falava sobre seu passado em Hollywood. “A cidade inteira conhecia minha situação”, disse ela. “As pessoas gostavam de mim pelo que eu era. Fiz alguns amigos maravilhosos e ainda sou próxima deles, mesmo depois de todos esses anos”. Ela acabou estudando na Universidade Central do Missouri e se tornou biomédica.

Os sete filhos de Grimes tinham a sensação de que sua mãe era uma atriz infantil - era legal levar uma foto dela no set para mostrar na escola - mas na época não sabiam da história de A Felicidade Não Se Compra.

“Não os criei pensando que era algo especial”, disse ela. “Eles praticavam esportes. Eu cozinhava o tempo todo. Vivia no carro, na lavanderia e na cozinha. Quando finalmente conseguia arranjar um tempo para relaxar, assistia ao The Tonight Show do Johnny Carson”.

A Felicidade Não Se Compra era pouco lembrado já na década de 1970. O filme tivera um desempenho ruim nas bilheterias décadas antes e não ganhara nada no Oscar, mesmo sendo indicado em cinco categorias, entre elas melhor filme e ator.

Mas, então, numa reviravolta milagrosa, bem apropriada ao tema do filme, seus direitos autorais caducaram e, de repente, as estações de TV tinham um presente que começaram a dar todos os anos: um filme de Capra estrelado por Stewart e Donna Reed que eles podiam transmitir de graça. A Felicidade Não Se Compra encontrou um novo público e status de ícone tardio. Em 1990, entrou no Registro Nacional da Biblioteca do Congresso de filmes americanos “cultural, histórica ou esteticamente significativos”. Agora é exibido exclusivamente na NBC.

 


“Certo dia, um repórter bateu à minha porta e disse: ‘Você fez o papel de Zuzu?’”, lembrou Grimes. “Ele pediu uma entrevista e eu disse: ‘Acho que sim’. Na semana seguinte, aconteceu a mesma coisa e continuou acontecendo. Pouco depois, comecei a receber cartas de fãs”.

Mais ou menos na mesma época, Stewart começou a receber perguntas sobre o que tinha acontecido com a garota que interpretara Zuzu e despachou sua secretária para encontrá-la. “Eu pensei, que diabos está acontecendo?”, disse Grimes. “E pensei que talvez fosse melhor sentar e assistir ao filme”.

Grimes, então com quase 40 anos de idade, nunca tinha visto o filme inteiro (ela caíra no sono durante a estreia). “Me impactou de um jeito que nunca esquecerei”, disse ela. “Foi uma montanha-russa emocional e, no fim das contas, entendi a mensagem maravilhosa que esse filme tem para todo mundo. Eu sabia que ele faria parte da minha vida, porque queria que fizesse”.

Ela tenta se guiar pela mensagem edificante do filme: a vida de cada pessoa tem um significado. “Sempre tento ver o lado bom das coisas”, disse ela. “Sempre há algo de bom, você só precisa procurar”.

As tragédias pessoais de Grimes fizeram as angústias de George Bailey parecerem uma moleza. Além de ficar órfã na adolescência, seu primeiro marido, com quem ela teve duas filhas, morreu num acidente de caça pouco depois do divórcio. Um de seus filhos se suicidou aos 18 anos. Tempos depois, ela perdeu o segundo marido para o câncer. (Ela agora mora com o terceiro marido em Seattle).

Assim como George, ela se dedicou a estender a corrente do bem. Assumiu a responsabilidade de mandar para a faculdade o melhor amigo de seu filho falecido - com quem ele passara o dia antes de “tomar a decisão”, disse ela - porque sua família não tinha como pagar. Ele se tornou advogado.

A conexão de Grimes com o filme se fortaleceu na década de 1990 com sua participação numa campanha de marketing da Target com o tema A Felicidade Não Se Compra. A campanha a reuniu com seus ex-colegas, como Jimmy Hawkins, que interpretou o irmão mais velho, Tommy, com quem ela continua fazendo aparições por causa do filme.

Embora ela tenha ficado restrita a aparições por Zoom no ano passado, durante os fechamentos do coronavírus, Grimes está de volta à estrada. Desde o Dia de Ação de Graças, ela viajou para eventos nos estados de Washington, Indiana, Oregon, Dakota do Norte, Colorado, Rochester e, finalmente, Seneca Falls, que se apresenta como inspiração para Bedford Falls.

“Ela vem para cá desde 2002”, disse Anwei Law, coordenadora do Museu Wonderful Life [referência ao título original do filme]. “Ela está sempre disponível para as pessoas. Se querem uma fotografia ou um autógrafo, mesmo depois de terminada a sessão, ela fica. Ela valoriza todo mundo. É a mensagem do filme e ela a cumpre à risca”.

Grimes gosta de seu papel de embaixadora da boa vontade. Sua cena favorita é quando George emerge de seu pesadelo e implora a Deus: “Eu quero viver de novo”.

“No minuto em que ele diz ‘Deus’, começa a nevar”, disse ela, “e ele descobre o que é realmente importante na vida. Para mim, é a fé, a família e os amigos. Acredito na possibilidade de milagres”.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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