1946 Paramount HE/Divulgação
1946 Paramount HE/Divulgação

'A Felicidade não se Compra' é a história definitiva sobre a importância de cada um

Filme de Frank Capra será exibido nesta quarta-feira, 17, na rede Cinemark

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2014 | 15h07

Pode ser que exista algum outro, mas o ítalo-americano Frank Capra bem pode ter sido o cineasta mais vilipendiado do mundo. Imigrante pobre que precisou vender jornais para pagar os estudos, ele teve tudo - sucesso, dinheiro, dois Oscars (por Aconteceu Naquela Noite e Do Mundo nada Se Leva) -, mas quando morreu, em 1991, pouca gente se lembrou das obras-primas virulentas do começo de sua carreira. Capra teve necrológios duros. Foi despachado com seus truísmos e moralismos. Os grandes discursos sobre a democracia foram minimizados e ele virou a discutível encarnação do sonho americano.

É tempo de resgatar o negligenciado Capra. Você ainda tem mais uma sessão para ver nesta quarta-feira, 17, às 19h30, nos clássicos restaurados do Cinemark, A Felicidade não se Compra. It's a Wonderful Life. Em 1946, no mundo cheio de esperança que se seguiu à derrota do nazifascismo na 2.ª Grande Guerra, Capra criou a história definitiva sobre a importância de cada indivíduo. Seu filme tornou-se o emblema do Natal. E é na véspera do Natal que James Stewart, como George Bailey, passa pela maior provação de sua vida. Acusado de roubo, ele não vê outra alternativa senão se matar. George sempre sonhou em viajar, mas a vida inteira lançou raízes em Bedford Falls, tocando seu negócio, ajudando todo mundo e, principalmente, impedindo o rico sr. Potter de dispor a seu gosto das pessoas ao redor. Foi, aliás, o poderoso Potter que se apropriou do cheque, envolvendo o tio de George numa operação que poderá levar o rapaz para a cadeia. Sua mulher e filhas rezam por ele e ocorre o improvável.

Surge o anjo que vai tentar preservar a vida de George - se tiver sucesso, ele ganhará suas asas. E o que faz o anjo? Mostra a George o que ocorreria se ele nunca tivesse nascido. A vida em Bedford Falls seria um pesadelo sinistro. Simples assim. Frances Goodrich e Albert Hackett escreveram, com Capra, o roteiro baseado na história - The Greatest Gift, O Maior Dom -, que Philip Van Doren escreveu num cartão natalino para amigos. Nada mais capriano do que essa afirmação do valor do indivíduo. George é idealista como outros heróis do diretor. Quando está prestes a desistir, sua fé é restaurada pelas pessoas que ele passou a vida ajudando. O final é de chorar, mas ao apoiar George os amigos não apenas destroem a maquinação de Potter como restauram os ideais que ele estava a ponto de perder.

O que se inicia como comédia e vira pesadelo - dos mais sombrios - termina como melodrama. James Stewart ainda estava na primeira fase de sua carreira. Os grandes westerns de Anthony Mann e os suspenses metafísicos de Alfred Hitchcock só surgiriam na década seguinte, mas ele já era um grande ator. Donna Reed, que faz sua mulher, é encantadora e o time de coadjuvantes é formado por craques, a começar por Lionel Barrymore, o sr. Potter, e Gloria Grahame, Ward Bond, Beulah Bondi, Frank Albertson, H.B. Warner etc. Se você não conhece A Felicidade não se Compra, ou se conhece o filme da TV e do DVD, dê-se um presente. Veja-o na tela grande, na versão restaurada, com imagem e som nos trinques. Capra foi um entertainer e, como muitos grandes, até hoje é maior que seus críticos. O próprio Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, é modesto, além de inexato, ao chamá-lo de príncipe da comédia chorona.O humor movido a arsênico de Esse Mundo É Um Hospício é tudo, menos sentimental.

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