A fascinante trajetória de Odete Lara vira filme

Odete Lara, a deusa das telas dosanos 50 e 60, enlouqueceu o coração dos homens e enlouqueceu-sea si própria. Hoje, a atriz de filmes como Noite Vazia, OBoca de Ouro, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Rainha Diaba, Copacabana me Engana, autora de livrosconfessionais como Eu Nua e Minha Jornada Interior, éuma senhora tranqüila, afável e de bem com vida. Vive na regiãodas montanhas, perto do Rio, e diz que encontrou o que semprehavia procurado: a paz. Quem a conhece sabe que não há razãopara duvidar.Essa vida intensa, essa biografia atormentada, queatravessa algumas das fases mais importantes da históriabrasileira recente, é contada por Ana Maria Magalhães emLara, que estréia amanhã (08). Três atrizes representam essaexistência: Luanne Louback faz a criança, Maria Manoela, a jovem, e Christine Fernandes, a atriz consagrada - Lara Brandini. Aadoção desse nome mostra a vocação anfíbia do filme: ser fielaos fatos, mas não com rigor obsessivo. Há espaço para afantasia, para a invenção e provavelmente para exorcismo dealguns fantasmas da própria diretora. Assim, Lara Brandini passaa ser uma figura compósita, como se diz em psicanálise. Compostade várias outras, mas cuja essência baseia-se na existência realde Odete Lara.E essa existência real é das mais conturbadas. Odetenasceu no bairro da Bela Vista em São Paulo, filha de imigrantesitalianos. Quando a menina tinha 6 anos, a mãe se suicida. O pai, que sofria de tuberculose, não podia mantê-la, de modo que aformação é feita num orfanato. Mais tarde, o pai, a quem amenina era muito ligada, também se mata, ingerindo veneno.Contado assim, parece Dickens, mas aconteceu na realidade.Por outro lado, a garota que emerge de todos essesinfortúnios é muito bem dotada. Inteligente, talentosa esobretudo bonita, muito bonita. Odete trabalhava como secretária, resolve fazer um curso de modelo e, com sua beleza e porte,impressiona o diretor do Masp, Pietro Maria Bardi. Ele recomendaa moça à recém-criada TV Tupi e então a carreira de Odete começacom a televisão brasileira. Participa de programas com TôniaCarrero e Paulo Autran e, como uma coisa leva a outra, estende asua experiência profissional ao teatro e ao cinema. EncenaMoral em Concordata, no TBC, e, sob direção de AbílioPereira de Almeida, estréia no cinema com Gato de Madame, aolado de Mazzaropi. Televisão, cinema, teatro e também música -porque Odete Lara gostava de cantar e tornou-se parceira deVinícius de Morais no show Skindô, depois gravado em disco.Sem ser uma Elis Regina, virava-se bem com sua voz pequena esensual.Vêm depois os grandes filmes, a começar por aquele emque sua presença é inesquecível, Noite Vazia. Odete faz umadas duas prostitutas (a outra é Norma Bengell) que passam anoite com os playboys Mario Benvenutti e Gabriele Tinti.Benvenutti é o ricaço entediado, que arrasta para a farra seuamigo mais jovem e duro. É agressivo, voraz e encontrará rival àaltura na prostituta vivida por Odete. Trata-se de uma magníficainterpretação, em que a beleza dos rostos e dos corpos secontradiz na troca de olhares duros, característica do amorcomprado.Há depois a Odete de O Boca de Ouro, com seu vestidode bolinhas colado no corpo, ajudando a reconstruir, de váriospontos de vista, a carreira do famoso bicheiro assassinado,segundo o relato de Nelson Rodrigues recriado na tela por NelsonPereira dos Santos. Desse Rashomon do subúrbio carioca, ficagravada na memória a figura vital de Odete, sensual, provocativa, levemente perversa, como convém a uma personagem rodriguiana.E há a Odete Lara que trabalha com Glauber Rocha, noexperimental Câncer, no qual tudo era praticamenteimprovisado, e naquele que é talvez o filme mais popular dodiretor baiano no exterior, O Dragão da Maldade contra o SantoGuerreiro. Neste, Odete interpreta uma cena difícil em queesfaqueia alguém repetidamente, numa agressão sem fim, quechegou a machucar realmente o ator. "Eu esperava, implorava queo Glauber gritasse ´corta!´, mas nada. Terminei a cena com obraço doendo de tanto esfaquear", ela se lembra, rindo.Essa cena, que Odete revive divertida hoje, éreproduzida no filme. E a diretora aproveita a seqüência paracolocar um detalhe do pano de fundo da época: o debate entre aestética inovadora do Cinema Novo e as propostas mais didáticasdos Centros Populares de Cultura. Para uns, apenas a invençãoliberta; para outros, uma pedagogia da conscientização seriamelhor para o País naquele momento.Tempos de antagonismos profundos, que Odete atravessou eAna Maria Magalhães procura refazer por meio de sua personagemLara. Esta é um perfeito exemplo da mulher de sua época,desinibida, liberal, politizada. Mas em meio ao vendavaldaqueles anos é também uma pessoa conflitada, problemática, eque se socorre da angústia no álcool e nas drogas. Afunda. Vaiao fundo do poço e quando admite que chegou ao limite estarápronta para jogar tudo para cima e cuidar de si. Do turbilhão deum período conhecido por suas idéias coletivistas, emerge para avida por uma saída individual. Não é a maior contradição de umaexistência feita de contradições, pelo menos até que o budismo aapaziguasse.O bonito filme de Ana Maria Magalhães reproduz comcorreção essa vida agitada em busca da serenidade. É fiel aosfatos em determinados momentos, e ficciona quando convém ànarrativa - por exemplo, fazendo de Guima (Caco Ciocler) umresumo dos múltiplos amores da atriz. O problema, nascinebiografias, é quando o espectador fica muito preso aopersonagem real. Por exemplo, em Ali, o bonito filme deMichael Mann, sabemos que Will Smith é um ator empenhado, seesforçando para parecer Muhammad Ali. Mas sabemos também queninguém pode ser completamente Muhammad Ali, a não ser opróprio. Dessa defasagem entre a expectativa real e a suarepresentação na tela vem um certo desapontamento. Por isso,parece interessante o recurso de Ana Maria de reviver Odete Laraatravés de uma personagem que se pareça com ela até o limite daconfusão - mas que não seja exatamente ela. Do espaço concedidoà ficção vem a verossimilhança do filme.Lara. Drama. Direção de Ana Maria Magalhães. Br/2002.Duração: 107 minutos. 16 anos.

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