A família na memória poética de "Eu me Lembro"

Grande vencedor do Festival deBrasília de 2005, "Eu me Lembro" ganhou, entre outros, osCandangos de melhor filme, direção e roteiro. Foi uma verdadeiraconsagração para Edgard Navarro, cineasta baiano que assinoufilmes baratos e transgressores que já o levaram a serhomenageado pelo Festival do Rio. É um cinema 100% autoral. Orepórter integrava o júri que superpremiou Navarro em Brasília.Ele mereceu, embora seja necessário explicar que, inicialmente,um filme memorialístico, com um título tão próximo do cultuado"Amarcord", de Federico Fellini, parecesse o cúmulo da pretensão "É pretensioso, mas também é muito sincero fazer assim, decorpo aberto, uma revisão da própria vida", define Navarro, quebusca respaldo no filósofo Nietzsche, que analisou justamenteessa dualidade da arrogância e da humildade humanas. Navarro lembra seus verdes anos em Salvador, asprimeiras descobertas sexuais e as decepções religiosas,volta-se para a sua juventude, em plena ditadura militar, etermina, fellinianamente, com a rodagem do próprio filme, como oGuido Anselmi interpretado por Marcello Mastroianni em "Oito eMeio". Quem esse Edgard Navarro pensa que é, você pode até seperguntar, mas vai logo esquecer a pergunta ao ingressar nesseuniverso meio mágico, sem deixar de ser crítico de toda umageração, que é o filme. A família que Navarro retrata, paiautoritário, mãe submissa, todo tipo de agregados à vida na casa é muito mais que uma auto-referência. Poderia estar em qualquercompêndio de sociologia que queira analisar/contestar a noção decordialidade do brasileiro. E vai além - falando de si e da suafamília, Navarro atinge a universalidade. Foi um filme difícil de fazer? "Foi difícil peladificuldade econômica, mas essa história sempre me perseguiu.Quando me decidi a encarar o desafio, escrevi rapidamente oroteiro, como uma catarse. Começamos a filmar com quase nada.Quando o dinheiro acabou, o produtor me disse que teria deenxugar o roteiro. Sofri, mas agora acho que foi melhor. O filmeteria ficado muito longo, sem aprofundar mais personagens esituações. E as elipses tornaram sua linguagem mais interessante" O próprio Navarro diverte-se ao definir "Eu me Lembro"como o filme mais mainstream de sua carreira. Ele pode tercaracterísticas mais palatáveis, mas com certeza não fazconcessões ao mercado. Sexo, política, família, religião, oNavarro libertário faz-se presente em cada fotograma. Como foifilmar a morte da mãe, a briga e a reconciliação com o pai? "Foidoloroso, mas lindo. Sinto que sou outro depois desse mergulhotão radical, em mim e na Bahia, no Brasil da minha geração."

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