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'A Família Bélier' incorpora deficiências físicas para fazer humor

Comédia francesa aborda temas como cidadania e superação

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2014 | 18h00

Em seu longa de estreia - Prête-Moi Ta Main, de 2008, com Alain Chabat -, Éric Lartigau já contou a história de um solteirão forçado pela numerosa família (mãe e cinco irmãs) a se casar. Em A Família Bélier, o diretor (e eventualmente ator) volta ao grupo familiar como criador de problemas. No centro de sua narrativa, está uma garota tímida, que se sente atraída por um colega da escola que nem se dá conta de que ela existe. Para ficar próxima dele, nossa heroína se inscreve numa atividade extracurricular - o coral. O professor de música descobre sua vocação - ela é muito boa cantora. Impulsiona-a a formar dupla com o garoto de seus sonhos e a concorrer a uma vagas numa audição para a Rádio França. O problema é a família de Paula (é o nome da garota).

A história do jovem talento lutando para se afirmar já foi contada muitas vezes. A originalidade de A Família Bélier não vem por aí. O que faz a diferença é a própria família. Pois os Bélier - pai, mãe e casal de filhos - são quase todos surdos/mudos. A exceção é justamente Paula, que vira uma espécie de porta-voz da família. Ela ‘fala’ por eles. E justamente hesita em seguir sua vocação. Se passar no concurso, ela terá de estudar (e viver) em Paris, e isso significa deixar a cidade interiorana, em que os Bélier possuem uma barraca na feira, na qual vendem seus queijos artesanais.

 

O filme começa com a rotina da vida de Paula. Como o pai, a mãe e o irmão, ela dá duro na granja, cuidando das vacas. De bicicleta e, depois, ônibus, ela vai à escola. E, no caminho, está sempre resolvendo problemas com fornecedores. Tem também a barraca na feira - muita coisa para uma garota só, principalmente quando se apaixona. Para complicar ainda mais o que já não é fácil, o roteiro - do próprio Lartigau - faz com que papai Bélier, insatisfeito com a administração municipal, se lance numa campanha para prefeito. A deficiência (auditiva) não limita a cidadania.

É curioso como alguns críticos reclamam do que lhes parece a falta de foco de A Família Bélier. O filme de Éric Lartigau quer dar conta de muita coisa. Na verdade, ele quer contar a história da garota - tudo o mais é parte do seu universo. Os pais, as vacas, o canto. Pode-se fazer um exercício de imaginação. O que seria ‘concentrar’ a história? Tirar a campanha eleitoral? O irmão? Na vida real (das pessoas) ocorre muita coisa que também parece supérflua, mas você não acorda de manhã e ‘expurga’ seu dia do que acha que não terá muita importância. E o que é importante, afinal de contas?

A Família Bélier tem cenas que você dificilmente encontraria em uma comédia de Hollywood, por exemplo. Papai e mamãe (François Damiens e Karin Viard)podem não escutar e só se comunicar por sinais, mas têm uma vida sexual ativa. A filha os acompanha ao consultório médico onde eles discutem um problema vaginal da mãe e a resistência do pai a usar determinado gel. Dali, a garota vai para a escola e participa de um debate sobre poesia, de outro sobre matemática. E ainda fica mocinha - menstrua pela primeira vez.

É muita coisa junta, e é o que faz a graça de A Família Bélier. Como todo filme sobre família, é sobre a pressão do grupo e as necessidades individuais. Com esforço, os pais tentam participar da vida de Paula (Louane Emera). Papai chega a segurar a garganta da filha quando ela canta para seguir seu esforço, já que o som ele não pode ouvir. A deficiência, que poderia ser um fardo, é signo de responsabilidade. Mas a família Bélier não quer impedir sua Paula de voar. É um filme bonito. Divertido e emotivo. Representa uma boa alternativa aos outros em cartaz - aos vários infantis, aos efeitos de Êxodo. E ah, sim, Louane é ótima.

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