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A falta de posição autoral limita 'Axé - Canto do Povo de Um Lugar' ao empilhamento de depoimentos

Documentário tem muitos depoimentos, mas falta um eixo mais analítico

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2017 | 04h00

Documentários podem ser criativos, informativos e/ou analíticos. Os melhores somam essas vertentes, que se alimentam e iluminam entre si. 

Axé - Canto do Povo de Um Lugar, de Chico Kertész, sobre a música baiana, opta por ser exaustivo. Entrevista mais de cem pessoas, entre músicos, cantores, empresários, jornalistas e “autoridades” em MPB. Desse modo, é um desfilar de nomes como Bell Marques, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Claudia Leitte, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Luis Caldas, Netinho, Ricardo Chaves, Sarajane, Daniela Mercury, etc. 

O acúmulo de depoimentos serve para empilhar informações a quem pouco sabe desse gênero de música. Nesse sentido, vale uma consideração paralela sobre a doutrina da entrevista no gênero documental, em particular no brasileiro. Durante muito tempo se considerou que a entrevista era a base, o núcleo duro de qualquer documentário digno desse nome. O chamado “cinema do real” bebia direto na fonte do jornalismo, este também escravo do declaratório. “É preciso ouvir as pessoas” - este é o dogma. Sem dúvida. Mas se deve também observar, contextualizar, analisar, buscar sentido no que se ouve e no que se vê. 

Um gênio do gênero, Eduardo Coutinho, serviu para dar credibilidade a esse predomínio da entrevista. O que seus imitadores não conseguiam enxergar era que Coutinho havia desenvolvido um instrumento próprio, um “cinema do diálogo” que o levava muito além das declarações textuais dos seus personagens. Coutinho esbanjava empatia e as pessoas lhe diziam coisas que não falavam para ninguém, talvez nem confessassem a si mesmas. Desnudavam a alma diante do homem e da câmera que registrava.

Quando ficou claro que só Coutinho sabia fazer um filme à maneira de Coutinho, houve uma mudança de rumos e o documentário brasileiro, se não abandonou de todo a entrevista, passou a investir em outras técnicas, em especial a observação e, muitas vezes, a participação do diretor naquilo que está filmando, forma de questionar a “objetividade” daquilo que está sendo registrado. 

De certa forma, Axé é um documentário à moda antiga. E contém todos os seus vícios. A começar por essa discutível noção de objetividade, que seria garantida pela multiplicação de vozes a prestar depoimentos. A falta de contradições internas parece dizer que o filme não deseja indispor-se com ninguém. Todos devem ter seu espaço e será preciso dar impressão de que o discurso é uno e sem dissonâncias. Em meio às vozes do axé, buscam-se critérios de autoridade na palavra dos dois baianos acima do bem e do mal - Caetano Veloso e Gilberto Gil. Funcionariam como traços de união de discursos fragmentários, conferindo legitimidade a um gênero musical que, se foi de fato grande sucesso de público, não passou incólume a críticas e detratores. 

Por exemplo, ao se tornar dominante, que efeito teria o axé sobre manifestações musicais brasileiras mais sofisticadas? Outro ponto a ser explorado: o branqueamento da axé music, que passa de manifestações afro-baianas a uma tipologia mais aceita pela classe média, mais domesticada e menos vista como agressiva. São temas que poderiam ser mais explorados caso o filme desejasse ser mais que mera homenagem a um gênero e seus cultores.

Mas, para fazer isso, precisaria adotar um ponto de vista, o do autor, e não diluí-lo entre seus inúmeros depoentes. Falta-lhe esse norte, essa bússola autoral. Além do mais, há esse pecado capital para um documentário musical: não se ouve, a não ser durante a apresentação dos créditos finais, uma única composição inteira ao longo do filme. A presença de música seria importante porque, afinal, o espectador pode ficar curioso em saber como o axé surgiu e no que se transformou ao longo do tempo. E isso não se faz com discursos, mas com a simples exposição musical das mudanças. Não à toa um documentário excelente como Uma Noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra, desvenda o mundo dos festivais e o contexto político e social que lhe dava sentido através da mera apresentação dos números musicais. Sem falar no sublime atingido por A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira e Dora Jobim, que ilumina o universo do maestro e do Rio de sua época sem qualquer depoimento. Apenas música e imagens.

 

Ressalvas feitas, Axé cumpre seu papel informativo, embora essa informação não seja depurada ou contextualizada. Alternando redundância e bons momentos, falta-lhe eixo, um pensamento sobre o assunto; em suma, a posição do autor, que lhe daria um sentido passível de ser discutido, é a maior ausência. 

 

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