A fábula moderna de "O Filho da Noiva"

O Filho da Noiva, de Juan JoséCampanella, foi um tremendo sucesso na Argentina. Pode repetir adose no Brasil, com alguns descontos, é claro. Porque se asituação humana examinada pelo cineasta pode ser tida comouniversal, a sua ambientação é tão portenha quanto o tango e acrise econômica. Esta, aliás, dá o pano de fundo ao longa. Por exemplo, o personagem Rafael Belvedere (RicardoDarín, de Nove Rainhas), é um homem em crise, vivendo em umasociedade em crise. Crise, por definição, é um estágio passageiro. A não serque se aplique a países ditos emergentes, nos quais a expressão"crise crônica" passou a não ser uma contradição em termos.Quer dizer, vivemos na crise, habituamo-nos (se possível) a ela,e nossas vidas se conformam segundo desígnios de flutuaçãocambial, fluxos de capitais, índices de bolsas de valores, etc. Assim, assolado entre os números da inflação e osíndices Merval (da bolsa de Buenos Aires), Rafael vai tocandoseu pequeno negócio, um restaurante que herdou do pai,interpretado pelo excelente Hector Altério. Este vive com amulher, Norma Aleandro, uma união de muitos anos, agoraperturbada pelo fato de a mulher sofrer de Alzheimer. Estáliteralmente desmemoriada. E o marido resolve, neste fim de vida, prestar-lhe uma homenagem: casar-se com ela na Igreja. Ele sehavia recusado a isso, no passado, por razões políticas. Esse projeto, tido como meio insensato, abala ainda maisa já agitada vida de Rafael, um workaholic agressivo, sem tempopara a namorada, sem tempo para a filha de um casamento desfeito, sem tempo para os pais já velhinhos. Ou seja, sem tempo para simesmo e para os outros. É um desses robôs da vida moderna, queempregam toda a sua energia para manter-se à tona num mundotornado competitivo demais. É como qualquer um de nós. Aoportunidade para repensar seu estilo de vida aparece quando temum ameaça de enfarte e descobre que talvez não seja imortal eseria mais prudente aproveitar a vida enquanto é tempo. O filme é isso: uma bem contada fábula moderna, comlaivos moralizantes, em que os tais verdadeiros valoresreaparecem em meio à desvairada luta cotidiana das pessoas. Querdizer, Campanella defende a tese de que, mesmo na desumanizaçãodo capitalismo moderno, sobrevive um resto de humanidade quepode ser resgatado em qualquer um de nós. Basta sair do turbilhão diário e tentar enxergar algoque parece óbvio: a vida não se resume a índices econômicos e osvalores éticos não precisam se subordinar ao ideário doliberalismo. Há quem pense que isso é ingenuidade. Masingenuidade maior talvez seja supor que vida é só isso que se vê, como não achava Paulinho da Viola. É um pouco mais, e esse algo maisseriam os valores não contábeis da amizade, do amor e dos laçosfamiliares. É por aí que vai Campanella, e no melhor registro docinema argentino de qualidade. Esse cinema se constrói na basede roteiros competentes, bons atores, eficiente direção de arte- enfim, aqueles elementos que, bem reunidos, fazem a cozinhacompetente do cinema comercial de qualidade, um ideal deHollywood. Aliás, não por acaso, O Filho da Noiva foi ofilme escolhido pela Argentina para disputar uma das cincoindicações para o Oscar de melhor produção estrangeira do anopassado. E isso por um conjunto de fatores. Alterio e NormaAleandro já trabalharam juntos em A História Oficial,vencedor de um Oscar no passado. São atores muito acima damédia, daqueles que conhecem o segredo de como emprestardensidade a um personagem. A mesma coisa pode ser dita deRicardo Darín, como sabe quem já o viu no papel de umtrambiqueiro em Nove Rainhas e agora o reencontra na pele dodilacerado Rafael. A história é centrada nos bons propósitos, noresgate de valores tradicionais um tanto corroídos pelasociedade moderna. A Academia gosta de pensar que eles estão lá,independentes do sistema econômico, e são valores universais.Esse humanismo de fachada, cuja expressão melhor é a doutrina dopoliticamente correto, é a face mais vendável da Academia. Enfim, os diálogos são ternos e às vezes agudos. As situações fluem e tudo se encadeia segundo plots bemdefinidos, o que dá testemunha de um roteiro bem construído. Esse filme certinho é, no fundo, acadêmico demais. Nãoquer ousar, não quer correr risco de espécie alguma. E se defato não erra, também não acerta. Pelo menos a fundo. Como todo"produto de qualidade" da sua espécie passa pelas coisas semaprofundá-las. E deixa de lado a oportunidade de fazer a críticaradical da sociedade onde essa história se passa. Esse sentidode conveniência se expressa da seguinte forma: vamos criticar,sim, mas de modo a não deixar ninguém constrangido. Parece um pouco aquele personagem de Andre Gide que apoiava asrevoluções desde que ninguém pisasse na grama do seu jardim.Essa disposição de ânimo bem-comportada tem sua contrapartidaperfeita no estilo de filmagem. Plano a plano: não há um erro,uma inquietação, uma ousadia. Tudo flui, emociona, e depois passa.O Filho da Noiva (El Hijo de La Novia) ? Drama. Dir.Juan Jose Campanella. Arg-Esp/2001. Dur. 123 min. Com RicardoDarín, Eduardo Blanco. Livre.

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