A fábrica de blockbusters da Marvel

Presidente da Marvel fala de ‘Capitão América 2’ e do anúncio do terceiro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

08 de abril de 2014 | 18h46

Como presidente da Marvel e também produtor dos mega-hits do estúdio, Kevin Feige tem feito história em Hollywood. Como Midas, tudo o que ele toca parece virar ouro. Seus sucessos ultrapassam a marca do bilhão – Iron Man 3 faturou US$ 1,2 bi, Os Vingadores foi ainda mais longe, US$ 1,5 bi. O primeiro Capitão América, com Chris Evans, faturou quase meio bilhão, o segundo estreou nos EUA batendo recordes. Num encontro com Feige, numa suíte de hotel em Los Angeles, o repórter o cumprimenta, mas adverte. "Não vá repetir Jerry Bruckheimer, cujos filmes recentes viram venenos de bilheteria." Feige levanta-se da poltrona e procura uma madeira para dar as três batidinhas e isolar.

Diz que o mérito não é só dele. "Somos uma equipe muito produtiva na Marvel. E, quanto aos filmes, o segredo é sempre se cercar dos melhores." Nessa definição de melhores, ele inclui os irmãos Anthony e Joe Russo, que assinam Capitão América 2 – O Soldado Invernal. O 1 era dirigido por Joe Johnston, cineasta subestimado, mas cujos filmes possuem uma característica peculiar. Um certo anacronismo de tom. O primeiro filme passava-se na 2.ª Grande Guerra, o herói enfrentava nazistas. Em Os Vingadores, o ‘Cap’ já era puxado para a atualidade e agora o tom é completamente contemporâneo.

Na nova trama, a S.H.I.E.L.D. é sequestrada pelo próprio secretário do governo norte-americano, que arma para matar Nick Fury (Samuel L. Jackson) e incriminar o Capitão América. "Não confie em ninguém", são as últimas palavras de Fury para o herói e isso lança Capitão América 2 no terreno movediço dos thrillers paranoicos dos anos 1970, que espelhavam a crise de confiança nos EUA do escândalo Watergate. Essa foi a proposta que Kevin Feige levou aos Russo, e eles a encamparam. O tom do filme inspira-se em clássicos como Três Dias do Condor, de Sydney Pollack, com Robert Redford, ou então A Trama e Todos os Homens do Presidente, ambos de Alan J. Pakula, o primeiro com Warren Beatty e o segundo com Redford e Dustin Hoffman.

Não se admire, portanto, com as revelações que vão incriminando o personagem do eterno Sundance Kid. É bom manter Alexander Pierce sob suspeita, porque os planos do cara relativos à segurança possuem um caráter nitidamente fascista, nazista até. E, claro, o filme tem Scarlet Johansson de novo como Natasha Romanoff, a Black Widow. A questão da segurança já estava no Robocop de José Padilha, que levava para a "América"’ (e o mundo) temores que o cineasta já manifestara no Brasil com seus Tropa de Elite (1 e 2). Tudo isso é verdade, mas o que confere espessura dramática – e pathos – à aventura é o elo entre o ‘Cap’ e sua nêmesis, o Soldado Invernal. Quem é o vilão, tão indestrutível quanto o herói – e, lá pelas tantas, até mais. A pergunta remete ao passado de Steve Rogers, o Capitão América, a tudo que ele perdeu. O amor, a amizade.

É uma fábula de amizade traída e recuperada. De tempo perdido e reencontrado. O repórter assinala, para o produtor, aspectos que não são os menos curiosos da trama. Com seus corpos congelados, degelados, submetidos a diferentes experimentos, o Cap e o Soldado Invernal terminam por se assemelhar aos personagens do canadense David Cronenberg, que também termina por se transformar em aberrações aos olhos de seus semelhantes. Feige sabe perfeitamente quem é Cronenberg. Marcas da Violência e Senhores do Crime são grandes filmes (ele também acha). "Você acha que ele poderia ser uma opção para dirigir Cap 2? Interessante..."

Mas está muito satisfeito com os irmãos Russo – deve ter ficado mais ainda, quando o filme estourou na bilheteria. Conta, e os irmãos confirmam na entrevista, que embora o filme trate da crise de confiança, ela foi total em relação à dupla. "Nos encontros com eles, ficou claro que possuíam uma visão do material. Depois disso, só nos restava apoiá-los. É o que faz a Marvel. Não queremos ‘yes-men’ (meros artesãos). Queremos diretores que ousem para tornar mais interessante para o público aquilo que temos em mente." Haverá Cap 3? "Mentiria se dissesse que já não estamos trabalhando no desenvolvimento de uma próxima história, mas isso vai depender do desempenho do 2." Os Russo voltariam à direção? "Não temos por que não lhes dar crédito, de novo."

E os planos da Marvel para o cinema? "Não é segredo que trabalhamos com muita antecedência, um pouco por causa dos contratos com os atores, mas também porque são filmes que exigem tecnologia de ponta e, às vezes, precisamos desenvolver os efeitos para filmes que ainda nem estão no papel. Quando fez a trilogia do Homem-Aranha, Sam Raimi iniciou a série sabendo que os especialistas já trabalhavam nos efeitos que ia precisar no 3, e que ainda não existiam. Os Vingadores 2 e o Homem-Formiga são nossas apostas para o ano que vem, mas já trabalhamos com hipóteses – Vingadores 3 para 2018, 4 para 2021." Ontem, citando a Marvel, a agência Reuters confirmou. O Cap 3 sairá em 2016. /

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