A exuberância latina de Jennifer Lopez

A escultural Jennifer Lopez está enchendo as telas de São Paulo desde ontem, em A Cela. Ela acaba de ser eleita a mulher mais sexy do mundo, pela revista inglesa FHM, que circula, além da Inglaterra, nos Estados Unidos, na Austrália, França, Malásia, Turquia, África do Sul e em Cingapura. É a sexta vez que a revista faz essa eleição entre seus leitores. Mas a reputação de Jennifer não é boa. Ela já falou mal das colegas de trabalho da mesma faixa etária que buscam os mesmos papéis que ela, como Gwyneth Paltrow, Sandra Bullock e Cameron Diaz. Há também a fama de ela ser uma verdadeira diva, que carrega uma grande entourage por onde quer que vá, além de ser exigente e de difícil trato. Dirigido pelo estreante Tarsem Dhandwar, um indiano radicado nos EUA e mais conhecido por ter dirigido videocliples do R.E.M. (como Losing My Religion) e propagandas da Coca-Cola e jeans Levi´s, não há nada que tenha surgido este ano no cinema que se compare às cenas barrocas e sanguinolentas de A Cela. E Jennifer é a primeira a avisar que seu novo filme não é indicado para os fãs que consumiram seu videoclipe If You Had My Love, hit musical da MTV e faixa tirada de seu primeiro trabalho como cantora.Misturando fortes cenas de violência com imagens que parecem saídas da mente de alguém em LSD, A Cela é um thriller futurista que transporta uma psicóloga (Jennifer) para a mente de um serial killer (o excelente Vincent D´Onofrio). A missão da terapeuta, que conta com a ajuda de um detetive (Vince Vaughn), é encontrar o paradeiro das vítimas do algoz. Jennifer, que finaliza seu segundo álbum, acabou de rodar no Canadá o novo longa do cineasta mexicano Luis Mandoki. O filme chama-se Angel Eyes e Jennifer contracena como Sônia Braga e Jim Caviezel. "No avião para Toronto, comecei a ler um perfil de Jennifer que saiu na revista Premiere e era bastante negativo", explica Sônia por telefone de Los Angeles. "Mas, ao encontrá-la pessoalmente, vi que tudo não passava de ficção: além de ser doce, o que me chamou mais a atenção foi seu profissionalismo", conta. "Jennifer é como a Glorinha Pires: amorosa, não chega um minuto atrasada, está sempre concentrada em suas cenas e sabe o texto de todo mundo. Tem gente que acha que é fácil estar onde ela chegou." Outro projeto da estrela é uma cinebiografia da pintora mexicana Frida Kahlo, que ela começa a filmar em fevereiro, com direção de Luis Valdez (de La Bamba) e produção-executiva de Francis Ford Coppola. Este ano, Jennifer ainda aparecerá na comédia romântica The Wedding Planner, ao lado de Matthew McConaughey.O que chamou sua atenção em A Cela?Jennifer Lopez - Ao ler o roteiro, tive a mesma sensação de quando vi O Silêncio dos Inocentes. Mas, apesar da mesma atmosfera, também enxergava ali havia espaço para muita licença artística. Por outro lado, fiquei interessada pela personagem. Ela é uma mulher forte, com um lado sutil. Qual foi sua reação ao ver o filme pronto?A primeira vez que vi o filme do começo ao fim senti-me totalmente imersa. Passado um pouco da trama, quando entro para valer na história, pensei: "Isso é bom!" (risos). E depois, mais para o fim, com todas aquelas incríveis imagens, disse para mim mesma: "Isso é algo que nunca vi antes." Bem, o que quero dizer é que fiquei impressionada com o que Tarsem fez com o filme. Quando você entra na cabeça do serial killer, as imagens são bastante perturbadoras. Como você se sentiu filmando aquelas cenas?É claro que A Cela tem algumas imagens que são bem explícitas e perturbadoras. Mas não tanto o quanto Tarsem gostaria de tê-las feito (risos). Definitivamente esse filme não é para as garotinhas que compram meus álbuns e gostam de cantar comigo. Não mesmo. Elas vão ter de esperar por The Wedding Planner, uma comédia que faço com Matthew McConaughey (risos). A Igreja Católica demonstrou preocupação quanto a uma cena em que você aparece vestida como Virgem Maria.Na verdade, aquela cena não foi concebida para eu aparecer como uma espécie de madonna. Não vi nenhuma mensagem religiosa nesse filme. A Cela é sobre uma terapeuta passando pela situação hipotética de entrar na mente de um criminoso. O vestido foi desenhado como uma homenagem a Iemanjá, a deusa das águas de vocês no Brasil. Ela foi criada para ser uma figura reconfortante na trama. Para compor sua personagem, você foi ao psiquiatra pela primeira vez. Que problema inventou?Eu não inventei nenhum. Já cheguei com o meu de verdade (risos). E o que sentiu sentada na frente de uma psicanalista?Eu posso ser bastante prolixa. Então, sentei lá e comecei a expor meu problema e ela disse que eu estava totalmente errada. Foi interessante a experiência. Além de aprender o que eu queria para minha personagem, saí de lá com outra perspectiva para um problema que vinha tendo. Nos últimos dois anos, você foi constantemente assunto na imprensa, principalmente nas páginas de fofocas. Consegue entender por que está sempre na mira das publicações sensacionalistas? Não. E também não me importo. É muito duro entrar nessa profissão e passar por aquele choque inicial. Isso aconteceu comigo quando fiz Selena. Minha vida mudou. Foi muito estranho porque eu nunca tinha desejado aquilo para mim. Era apenas o caso de uma atriz que queria trabalhar e, de repente, a imprensa me descobre, me elege e todo mundo passa a saber quem sou. Depois dessa entrada, passei por um período em que eles vasculharam minha vida. E isso me afetou muito, porque estava incomodando pessoas que eu gosto. Fiquei muito chateada e decidi processar todo mundo. Depois percebi que estava perdendo a batalha e tentei aprender a lidar com isso. Procuro sempre me lembrar de que ninguém vai saber a verdade sobre mim e eu sempre vou ser mal interpretada na mídia, histórias serão fabricadas sobre minha vida particular e todo mundo vai lê-las e formar sua opinião. Adoro trabalhar e me sinto afortunada em estar fazendo o que faço. E é por estar focada em fazer o melhor que eu consigo manter minha trajetória sempre reta. Você tem fama de andar com uma grande entourage, guarda-costas e pessoas paparicando-a o tempo todo...Eu não suporto esse papo. Tenho grandes pessoas que trabalham comigo, que são como minha família. Eles me chamam de Mã. Minha entourage é de pessoas que me ajudam a administrar tudo o que tenho de fazer. Na verdade, nem os chamaria de entourage. Eu tenho um manager, um assessor de imprensa, uma assistente pessoal. Não conseguiria me virar sem eles. Não sobra muito tempo para mim num dia. Se tivesse, adoraria fazer as coisas sozinhas, por mim mesma. E eu tenho segurança, sim, apesar de detestar. Sempre tento escapar sem segurança, mas aí vem meu namorado (o rapper Sean "Puffy" Combs) e fica bravo comigo. `Você não pode sair assim sem segurança. Não sabe o que pode te acontecer?´ E Puffy vai reclamar com o Benny, que é meu manager (risos). Mas eu me sinto uma pessoa normal. Estou rodeada por gente que gosta de mim, que acredita no que faço e que me ajuda muito. Quando realmente conheceu Puffy Daddy?Quando fiz um vídeo com ele chamado Been around the World. Eu estava filmando Irresistível Paixão, com o George Clooney, há uns três anos. Ficamos amigos e as coisas começaram dali. Ele acabaria incentivando-a a iniciar uma carreira musical de bastante sucesso. Esperava ter esse reconhecimento também na música?Não. Isso não é uma coisa que você espera, mas que sonha. Você coloca seu coração e sua alma na música e ela se torna um reflexo real de quem você é, o que é bem o oposto de um filme, onde você interpreta uma personagem. Esperava que alguém conectasse, entendesse e dançasse com minhas músicas. Apesar de sua família ser porto-riquenha, você nasceu nos Estados Unidos. Você se sente latina?Eu acho que fui agrupada nessa onda de música latina porque éramos três lançando álbuns ao mesmo tempo - Ricky Martin, Enrique Iglesias e eu. Claro, sou latina e fiz, sim, um álbum pop em inglês porque sou americana. Essa coisa não me incomoda. Mas quando eles taxam a música da gente com determinada cultura isso implica que é um modismo, o que eu acho injusto. Ninguém fala, "ah, aqueles músicos do Texas, vamos colocá-los todos juntos".

Agencia Estado,

03 de novembro de 2000 | 12h00

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