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A expectativa que 'Thelma & Louise' criou para as mulheres no cinema se cumpriu?

Pesquisas mostram que a indústria não abriu caminho para as mulheres

Jocelyn Noveck, AP

09 de setembro de 2017 | 17h21

Quando Geena Davis e Susan Sarandon se deram as mãos, pisaram no acelerador e lançaram seu carro no despenhadeiro, no memorável final do filme Thelma & Louise, muita gente em Hollywood achou que elas estavam lançando mais do que aquele Thunderbird turquesa. O ano era 1991 e a expectativa – ou pelo menos a esperança – era de que inauguravam uma nova era para as mulheres no cinema, em que seria mais fácil para elas assumirem papéis principais e cineastas femininas teriam mais facilidade para conseguir trabalho. 

O que não aconteceu, diz Geena Davis, a Thelma do filme. “Não mudou nada”, diz ela, que nos 25 anos que seguiram tornou-se defensora da diversidade em Hollywood, especialmente na luta pela representação de gênero nos filmes feitos para crianças. “Nunca tivemos algum movimento de avanço”. Na verdade, diz ela, as coisas não melhoraram desde a década de 1940. “Nossa pesquisa mostra que a proporção de personagens masculinos em relação aos femininos no cinema não mudou desde 1946”, diz Geena referindo-se aos estudos feitos pelo grupo de pesquisa sem fins lucrativos que fundou, o Geena Davis Institute on Gender in Media.

Mas e quanto à Mulher Maravilha, um enorme sucesso que quebrou o teto de vidro e transformou Gal Gadot em uma superestrela, e chamou a atenção global por ser um filme de ação dirigido por uma mulher? Geena não está confiante. “Veja, tivemos Jogos Vorazes, Frozen e até Guerra nas Estrelas com uma mulher no papel principal. E agora a Mulher Maravilha. Você imaginaria que vencemos. Mas temos de aguardar os dados. Thelma & Louise foi lançado há 25 anos e nada mudou. Sei que um dia a situação vai mudar, mas afirmar que este é o momento, bem, você vai ter de provar para mim.”

Também cética se mostra a roteirista Callie Khouri. Sua história da aventura fatal, em uma viagem do Arkansas ao Grand Canyon, de Thelma, tímida dona de casa, com um marido chauvinista, e Louise, a garçonete experiente que guarda um segredo atroz, marcou sua estreia como roteirista. E ela conquistou o Oscar de roteiro original, prêmio nunca dado a uma mulher em 60 anos.

Foi um momento decisivo para as mulheres? “Que não aconteceu”, diz Callie, com amargura. “Ainda estou aguardando. O sucesso de Mulher Maravilha soa como uma minúscula rachadura nesse teto de vidro. É um tanto assustador ver como as coisas mudam tão lentamente, já estou cansada disto. Por que as coisas não mudaram para as mulheres? Não nos pergunte”

Vinte e dois anos depois de Thelma & Louise aparecer na capa da Time, devido à discussão sobre gênero que o filme gerou – era feminista ou fascista, inspirador ou escandaloso? “Este filme ainda repercute e de modo surpreendente”, diz Becky Aikman, autora do livro Off the Cliff, que conta a história dos bastidores de uma produção que enfrentou todas as adversidades até para ser levada adiante. “Mas claramente foi um filme que saiu do padrão e não um ponto de partida”, diz. “Muitas pessoas pensavam que, com o grande sucesso de Thelma & Louise, teríamos mais filmes nessa linha. Mas ninguém produziu algo similar, o que é muito frustrante, e mostra como é refratário o ponto de vista de Hollywood, no sentido de que um filme de enorme sucesso não faz com que as pessoas em posições de poder queiram produzir algo similar.”

A luta das mulheres em Hollywood, na tela e por trás das câmeras, tem sido objeto de inúmeros estudos, incluindo alguns publicados mais recentemente. Mas a maior parte é sobre filmes para adultos. Entretanto, o instituto de Geena Davis se concentra em conteúdo direcionado para as crianças, e pesquisas sobre filmes orientados para a família. “Se você deseja mudar o mundo, deve mudar a mente de uma criança”, diz Madeline Di Nonno, CEO do instituto. “Geena é pioneira neste campo de pesquisa porque começou com sua filha e ficou preocupada com o que viu.”

Geena diz que agora, quando assiste a filmes e TV com os três filhos, “e eles me olham antes de eu falar alguma coisa e dizem ‘Já percebi’”. Estudo realizado pela Annenberg School for Communication concluiu que, por trás das câmeras, as mulheres diretoras ainda são raridade. Dos 100 filmes de sucesso em 2016, apenas cinco diretores eram mulheres dos 120, incluindo codiretores. Somente uma mulher conquistou o Oscar de direção em 89 anos de história do prêmio: Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror.

A experiência de Callie Khouri é instrutiva. “Levei 10 anos até alguém permitir que eu dirigisse alguma coisa. E tentei a cada dia desses 10 anos”, afirma. Ela acabou dirigindo o filme Divinos Segredos, de 2002, e ficou decepcionada ao ser catalogada como diretora de filmes femininos. “Nunca entendi porque me enviavam somente histórias sobre mulheres sofredoras. Ninguém gosta de ser estereotipado. Além do que, nunca pensei em Thelma & Louise como um filme particularmente ameno.” Ela depois foi para a TV, tendo criado Nashville. Mas apesar das dificuldades, diz que há um aspecto positivo, além da estatueta em cima da lareira. “Honestamente, aqui estamos, 26 anos depois, falando sobre esse filme. Portanto, eu venci.”/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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