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Cena do filme 'Batman', de Matt Reeves, com Robert Pattinson Warner Bros

Cena do filme 'Batman', de Matt Reeves, com Robert Pattinson Warner Bros

A evolução de Batman, de personagem cômico a sombrio em oito décadas

Novo filme protagonizado por Robert Pattinson estreia nesta quinta, 3; veja o trailer

Matheus Mans , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Cena do filme 'Batman', de Matt Reeves, com Robert Pattinson Warner Bros

Mais de 80 anos separam a Detective Comics #27, primeiro quadrinho do Homem-Morcego, da estreia do filme Batman, a mais recente produção do herói protagonizada por Robert Pattinson, nesta quinta, 3, nos cinemas - diversas salas já terão pré-estreias nesta terça, 1.º. E o personagem não poderia ter mudado mais. Ao longo dessas oito décadas, o herói apresentou diversas facetas nas HQs, buscando encontrar uma identidade definitiva e, principalmente, se adequar ao que a sociedade estava querendo, pensando e consumindo. 

A base do personagem, é claro, sempre segue um caminho bem similar: Bruce Wayne é um garoto órfão com sede de vingança. Mais do que se rebelar contra o algoz de seus pais, o rapaz quer se vingar daquela cidade que o brutaliza e o joga à margem. Quando fica adulto, e milionário, começa a encontrar possibilidades de se vingar por meio de embates travados contra figuras como o Coringa, Pinguim, Duas Caras, Senhor Frio, Charada e Ra’s al Ghul.

As leituras dessa história, porém, são bem distintas. “(Nos quadrinhos), começou como lenda urbana e vingador impiedoso, passando depois para um divertido cavaleiro mascarado e um detetive com rígido código moral. Mais adiante, sofreu por amor, lutou contra perdas de entes queridos e crises existenciais, se mostrou paizão de muitos e testou a sua eterna missão de todo jeito”, diz Sílvio Ribas, jornalista e autor do Dicionário do Morcego. “O curioso é que todas essas faces e fases são respeitadas e igualmente válidas.”

Os traços dos quadrinistas que davam vida para o Homem-Morcego nas páginas da DC Comics também se transformaram. Ao comparar com o Batman dos anos 1940 com revistas mais atuais, percebem-se traços mais rebuscados e uma busca constante por um tom cada vez mais sombrio. “O personagem teve a chance de amadurecer em suas histórias e em seus conceitos junto com a sua base de fãs”, comenta o quadrinista brasileiro Ivan Reis, conhecido por desenhar fases aclamadas das HQs de Aquaman e Lanterna Verde.

Sombras

O cinema e a televisão, enquanto isso, acompanharam a movimentação. A série do personagem, nos anos 1960, tinha um ar mais cômico e até detetivesco, com Adam West, Burt Ward e Cesar Romero fazendo tipos mais caricatos. Depois, Tim Burton assumiu os filmes do personagem, já perto dos anos 1990, com uma abordagem gótica. Ou seja: sombria, mas ainda um pouco bizarra, estranha e cômica. Quando Joel Schumacher assumiu a batuta, porém, tentou jogar mais humor na história. Foi um absoluto fiasco de público e crítica.

As sombras só chegaram com força em 2005, novamente acompanhando uma movimentação dos quadrinhos, quando Christopher Nolan deu uma visão pessimista na trilogia que dirigiu. Além das sombras, uma certa dose de violência chegou em Batman vs Superman, uma das visões mais brutais do personagem. Agora, com o manto nas costas de Robert Pattinson, a trama deve colocar esse sombrio no coração e na mente do herói. 

Rebeca Cambaúva Leite, autora do livro Batman: O Bruce Wayne de Tim Burton e Christopher Nolan, acredita que dificilmente esse tom irá mudar. “Não acredito que seja uma fase. Vejo que a faceta sombria do Morcego veio para ficar. Esses movimentos de adaptação estão igualmente ligados à necessidade de adaptação do próprio personagem em atender as demandas de uma nova sociedade”, diz. “A cultura pop está em constante evolução. Afinal, só pode ser considerada ‘cultura’ a partir do momento em que ela acompanha os hábitos e tendências daquela sociedade. Batman, por sua vez, fez o mesmo movimento e se adaptou de acordo com as novas demandas históricas e sociais.”

Além disso, pensando na recepção do público, o sucesso de filmes e séries sempre foi maior em produções mais sombrias. Batman: O Cavaleiro das Trevas, produção sempre lembrada pela presença premiada de Heath Ledger como o vilão Coringa, tem uma nota 9 no agregador e banco de dados IMDb.

“O Batman, assim como o universo em geral de histórias em quadrinhos, tende a retratar o período em que vivemos, as dúvidas e angústias de uma geração. Essa visão mais séria e sombria retrata muito bem um momento atual onde se militariza a estética e se busca um mundo de história mais realista. Batman já foi retratado como sombrio em outros filmes, porém com uma abordagem mais fantasiosa”, relembra o quadrinista Ivan Reis, em entrevista ao Estadão.

Além de Bruce

Além disso, para entender melhor essas transformações, vale a pena também analisar Gotham, a cidade do Homem-Morcego. Afinal, ela serve como uma base para que os roteiristas, seja nos quadrinhos ou nas telas, façam o desenvolvimento completo do herói. “Gotham é uma personagem poderosíssima. Para contemplar aquela nova atmosfera de sombra, morte e vingança acerca de Batman, seria necessário que o espectador compreenda aquela cidade adoecida, contaminada e gritando por socorro”, continua Rebeca. “A proposta ficou tão redonda que funcionou como um divisor de águas na história da personagem e de suas bases fundamentais.”

Curiosamente, apesar de tantas transformações e tantos traços adotados, Batman continua sendo um ícone para muitos e um dos personagens mais amados, adaptados e influenciáveis em toda a cultura pop. Por quê? André Azenha, jornalista e organizador do evento brasileiro Batman Day, arrisca. “Ele não tem superpoderes e mesmo assim decide lutar por justiça”, comenta Azenha. “Ele é milionário, e pouca gente poderia se identificar neste sentido, mas muita gente gostaria de ser milionária e poder imaginar o que poderia fazer com tanto dinheiro e por que não fazer justiça, tentar fazer o mundo melhor?” 

Personagens do novo 'Batman', com Robert Pattinson:


 

 

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Cena do filme 'Batman', de Matt Reeves, com Robert Pattinson Warner Bros.

Consumido por vingança, Batman não está preparado para saber dos pecados do pai

Para o diretor do novo filme sobre o Homem-Morcego, Matt Reeves, uma frase é essencial: a verdade será desmascarada; veja o trailer

Imagem Luiz Carlos Merten

Luiz Carlos Merten , Especial para o Estadão

Atualizado

Cena do filme 'Batman', de Matt Reeves, com Robert Pattinson Warner Bros.

Logo no começo do novo Batman, o Homem-Morcego entra meio como penetra no cenário de um crime. O prefeito de Gotham City, candidato à reeleição, é assassinado. Seu filho, um garoto, é quem encontra o corpo. Há uma troca de olhares entre Batman e ele. O que vem, para o herói da DC, é o próprio passado, a morte brutal de seus pais, quando ele também era menino. Bruce Wayne, o alter ego do Homem-Morcego, vive preso àquele momento. O fantasma do pai o atormenta. Tornou-se vigilante em defesa da cidade, mas confessa aqui que o medo que sentiu na infância nunca o abandonou totalmente.

Na ficção de Matt Reeves - diretor de Cloverfield: Monstro e dois Planeta dos Macacos -, a onda de crimes em Gotham City se liga à corrupção da política e da polícia. Batman enfrenta o Charada, que o envolve em seus enigmas. Alfred, o mordomo, o ajuda a decifrar as charadas. Elas levam a um plano sinistro para destruir Gotham City. Vingança, renovação. São palavras-chave em Batman. Logo após a troca de olhares do início e após mais de duas horas de ação frenética - o excesso dá o tom da mise-en-scène: sombras, chuva intermitente -, Batman abre os braços para acolher o filho do ex-prefeito. É como se ele se reconciliasse consigo mesmo. No processo, ganha uma aliada, Zoe Kravitz. Um beijo mostra que poderiam ser algo mais.

 

A verdade será desmascarada

Reeves já disse que seu interesse por Batman remete a Adam West, que interpretou o papel no ano de seu nascimento, 1966. O Batman de Adam West é considerado camp, mas, para Reeves, é maneiro. Ele ainda o vê com seus olhos de menino. Houve muitos mascarados depois daquele. Na chamada para o de Reeves, uma frase é essencial. A verdade será desmascarada. Na sucessão de máscaras que caem, os vilões são revelados até o último deles. Como no Coringa de Todd Phillips, esse Charada definitivo será a expressão de uma revolta coletiva. Todo mundo armado. Bangue-bangue. Não é assim que se constrói uma democracia. 

O grande trauma para o qual Batman não está preparado é a revelação dos pecados de seu pai. Zoë também enfrenta os pecados do pai dela. Reeves já disse que quis fazer um Batman bem pessoal. Seu Homem-Morcego remete ao tormento do Cesar de Planeta dos Macacos. Num determinado momento, quando acolhe o menino, parece que ele vai realizar sua vocação de herói, liderando com a tocha a promessa da verdadeira renovação. 

Poderia ser o fim, mas Batman ainda tem mais dois ou três desfechos que, se não enfraquecem, tornam redundante o que Reeves está querendo dizer sobre o herói, e o estado do mundo. Robert Pattinson já provou que é ator de verdade. Faz, como diriam os americanos, um Batman ‘terrific’. 

 

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‘The Batman’: Robert Pattinson recebeu conselho inusitado de Christian Bale

O antigo intérprete do Batman deu conselhos a Pattinson sobre o traje do Homem-Morcego

Rafael Nascimento, ESPECIAL PARA O ESTADÃO

22 de fevereiro de 2022 | 19h45

O ator Robert Pattinson, recebeu conselhos de Christian Bale sobre o traje do Batman no novo filme do personagem protagonizado por Pattinson. Em entrevista ao programa Jimmy Kimmel Live!, o artista revelou que os atores se encontraram em um banheiro e Bale deu uma dica inusitada ao novo Homem-Morcego.

Christian relatou ao colega que o traje de Batman nos filmes dirigidos por Christopher Nolan não era removível facilmente, o que demandava ajuda de outras pessoas para que o ator pudesse ir ao banheiro. 

"Estava com um pouco de medo de perguntar qualquer coisa, mas esbarrei em Christian Bale, fiquei ao lado dele em um mictório, e isso o inspirou a dizer: 'Antes de tudo, você precisa descobrir uma maneira de fazer xixi com o traje,'" disse Pattinson.

O conselho fez com que o novo Batman pedisse algumas mudanças no figurino do personagem, principalmente para facilitar as idas ao banheiro: "Quando entrei no departamento de figurino, pensei: 'Preciso de um remendo. Preciso de uma aba nas costas. Fácil acesso. Velcro. Faria xixi sentado.'"

The Batman é dirigido por Matt Reeves e estrelado por Robert Pattinson no papel de Bruce Wayne. A estreia do longa-metragem está prevista para 3 de março de 2022.

O elenco conta ainda com Zöe Kravitz como Mulher-Gato, Paul Dano como Charada, Colin Farrell no papel do Pinguim, Jeffrey Wright como Jim Gordon, Andy Serkis como Alfred Pennyworth, Barry Keoghan como Stanley Merkel e outros.

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Como vilões norte-americanos se tornaram os queridinhos de Hollywood

Cada vez mais destacados no cinema, os antagonistas, antes russos ou alemães, hoje são frequentemente representados por agências ou grupos estadunidenses

Sabrina Gabriela, Especial para o Estadão

13 de setembro de 2021 | 15h27

Toda boa história tem um vilão e, com o passar dos anos, Hollywood se mostrou genial em criar ótimos personagens desse tipo. Deixando de lado os monstros e fantasmas, boa parte dos antagonistas hollywoodianos é formada por humanos, meros homens e mulheres cujo objetivo é causar o mal. No entanto, se, há algumas décadas, uma porção significativa dos vilões das telonas era de russos, alemães ou árabes, agora, os Estados Unidos colocam a si mesmos como grandes vilões do cinema.

Basta pensar em sagas como Rambo ou em filmes como Rocky IV (1985) e 007 contra GoldenEye (1995) para constatar que, de forma geral, a presença de personagens russos em longas-metragens costuma ser no papel do antagonista. Já os alemães são vilões importantes em Duro de Matar (1988), Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), 007 contra o Satânico Dr. No (1962) e na série Austin Powers. Por fim, os árabes estrelam nesses papéis em Busca Implacável (2008), Nova York Sitiada (1998) e séries como Homeland.

A escolha da nacionalidade do vilão dificilmente é aleatória. Vale lembrar que, durante a segunda metade do século 20, os Estados Unidos estavam investidos na Guerra Fria contra a então União Soviética.  Assim, os norte-americanos enxergavam os soviéticos (em grande parte, as pessoas que hoje chamamos de russos) como tipos maus, violentos, não merecedores de confiança. O mesmo vale para alemães, que enfrentaram a fúria estadunidense durante a Segunda Guerra Mundial, e para os árabes, sobretudo após os atentados do 11 de setembro.

É claro que os estereótipos vilanescos atribuídos a cada uma dessas nacionalidades não surgiram apenas com essas guerras, mas os confrontos mencionados impulsionaram o preconceito contra esses povos, o que foi refletido nas telonas.

Mais recentemente, porém, cada vez mais as agências, instituições e os próprios cidadãos norte-americanos têm pipocado como antagonistas em Hollywood. É o caso de filmes como Avatar (2009), Transformers: A Era da Extinção (2014) e O Esquadrão Suicida (2021) -  isso, é claro, sem falar em longa-metragens produzidos fora dos Estados Unidos, como o brasileiro Bacurau (2019). O que motivou essa mudança, colocando os estadunidenses no holofote vilanesco em seu próprio país?

 

“Isso se deve a uma mudança de mentalidade com relação à própria humanidade”, explica Efrem Pedrosa, professor de rádio e TV do Centro Universitário FMU. “O exercício irreal do norte-americano como herói máximo em oposição aos demais se tornou completamente obsoleto, e a exposição de suas falhas e fraquezas indica um reposicionamento do cinema.”

Para o especialista, em cuja lista de vilões favoritos destacam-se Darth Vader e Miranda Priestly, o perfil de um antagonista diz algo sobre a sociedade e seus governantes. Em decorrência desse fato, temos visto cada vez mais filmes em que o vilão é protagonista, apresentando ao público sua história de vida e suas motivações a ponto de fazer o espectador se questionar sobre se está assistindo a uma pessoa completamente má ou a uma vítima das circunstâncias.

Nos tempos atuais, os antagonistas estão em alta. Filmes como Cruella (2021), Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa (2020) e Malévola (2014) apresentam vilãs conhecidas sob uma nova perspectiva, capaz de atrair o público à sua torcida. Um dos possíveis efeitos da maior exploração psicológica dos vilões em filmes hollywoodianos é que, em alguns casos, a teoria ou missão do antagonista pode parecer aceitável aos olhos do espectador. Vários internautas se colocaram ao lado de Thanos, oponente dos Vingadores, quando ele abordou a superpopulação da Terra e do universo (embora pouquíssimas pessoas apoiassem seu método radical de exterminar metade da vida que existe). Diversas mulheres se manifestaram a favor de Arlequina, de Esquadrão Suicida, ao perceber que ela estava em uma espécie de relacionamento abusivo com o Coringa (ainda que entendam que a solução adequada para isso não seja o homicídio). Dessa forma, alguns antagonistas se tornaram queridinhos do público, sendo frequentemente vistos como superiores aos heróis formulaicos e politicamente corretos.

“Esse protagonismo é muito bem-vindo para que possamos debater os vilões e apreciá-los na telona”, diz Pedrosa. “A minha torcida é para que o cinema seja cada vez mais democrático, que possa trazer personagens que fortaleçam a representatividade e o debate político-social - o que já está acontecendo.”

Mais do que influência do passado norte-americano em termos de política externa, as questões e debates sociais do presente também afetam a forma como um vilão é concebido em Hollywood. A ascensão da extrema-direita dentro dos Estados Unidos levou, por exemplo, à construção de um Batman xenófobo, extremista e com nítidos sinais de loucura em Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016) - muito diferente do Homem-Morcego honrado que estamos acostumados a ver. É essa a opinião de Renan Claudino Villalon, docente do curso de Cinema da Universidade Anhembi Morumbi.

“Nesse caso, o Batman remete ao medo e desejo de vingança presente em muitos estadunidenses desde o terrível atentado ao World Trade Center”, declara. “Do mesmo modo, quando vemos um personagem intitulado Peacemaker (ou Fazedor da Paz) em O Esquadrão Suicida tentando evitar que os segredos do envolvimento norte-americano em uma crise sejam publicados, sendo considerado nitidamente um dos principais vilões da narrativa, percebemos que a sociedade não mais acredita na idoneidade das ações político-militares da própria nação.” Para Villalon, alguns dos principais antagonistas das telonas são Jack Torrance (de O Iluminado) e o Coringa (de O Cavaleiro das Trevas). O professor pontua ainda que, além de refletir a opinião do povo sobre algo, a construção do vilão também depende da opinião individual dos cineastas responsáveis pelo filme.

Dessa forma, compreende-se que a escolha de um vilão é muito mais do que uma escolha arbitrária. Mais que sinalizar o sentimento de uma sociedade, a construção do antagonista reflete o Zeitgeist (espírito da época) do período em questão, servindo talvez como um documento artístico para que, no futuro, historiadores possam entender o ponto de vista de um povo a partir dos vilões de seus filmes preferidos.

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