Paulo Giandalia/Estadão
Paulo Giandalia/Estadão

A eutanásia, vista com força pelo ‘casal 20’ da Itália

O astro Riccardo Scamarcio conta porque teve de produzir o longa-metragem de estreia de sua mulher, Valeria Golino

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

30 de novembro de 2013 | 19h41

Belo, moreno, cabelos encaracolados, olhos claros - o tipo físico (de ‘meridionale’) foi decisivo para que Riccardo Scamarcio deslanchasse na carreira, tornando-se um dos atores mais conhecidos de sua geração no cinema italiano. Mas ele não esteve em São Paulo nesta semana na condição de ator. Veio como marido e produtor de Valeria Golino, a estrela italiana de Hollywood (Rain Man, de Barry Levinson), que estreia na direção com o longa Miele (Mel).

É uma das atrações da mostra contemporânea do Festival de Cinema Italiano, que segue até quinta-feira, depois de apresentar, na primeira semana, a retrospectiva dos irmãos Taviani. Scamarcio empolga-se ao saber que o repórter, um dia antes, entrevistou no Rio Spike Lee, e que o diretor de Faça a Coisa Certa lhe relatou seu encontro com Caetano Veloso e Milton Nascimento. Caetano! "Sou louco por ele. Ouço sempre. Suas homenagens a Federico Fellini e Giulietta Masina são emocionantes."

Como e por que um ator com pinta de galã vira produtor do filme de sua mulher? "Só isso já basta para que você tenha ideia dos interesses que dominam o cinema italiano atual. Não conseguimos um produtor para bancar nosso filme. Mel trata de um terma forte, a eutanásia, e todos diziam que era um filme para perder dinheiro. Não é verdade. Fizemos o Mel, o filme teve ótimas críticas, o público compareceu. Não é nenhum blockbuster, mas estamos muito felizes."

Tudo começou com o livro A Nome Tuo, de Mauro Covacich, que Valeria leu, e amou. Ela comprou os direitos com uma amiga (Viola Prestieri) e chegou a falar com alguns diretores - Silvio Soldini interessou-se -, mas chegou num ponto em que Valeria estava obcecada e o filme não andava. "Ma per che non lo fai te, amore?", mas por que não o faz você, amor? A pergunta mágica de Scamarcio. Ela fez, ele produziu, o filme foi a Cannes (na mostra Un Certain Regard). Foi vendido para dezenas de países e agora Scamarcio e Valeria dão a volta ao mundo promovendo Mel.

Olhe aí a foto. Você sabe quem é ele. O ator de Costa-Gavras e Ferzan Özpetek, de Éden a Oeste e O Que Disse Primeiro. Scamarcio conta seus encontros com os cineastas greco-francês e turco-italiano. "Estava em Paris, um dia toca o celular, eu pergunto quem é, alguém responde ‘Sono Costa’, porque ele fala bem italiano. Costa quem? Gavras. ‘Que brincadeira é essa, quem é?’ Era Costa-Gavras, me propondo um papel que aceitei imediatamente. Costa é um mestre, e é um diretor à antiga. Olha no visor da câmera, não segue o filme pelo monitor. E, com ele, a gente aprende. Não só o ofício que, afinal, já conhecia, porque estudei para ser ator. Com Costa, a questão social, a humana, a política, tudo isso é tão importante quanto a estética."

E Özpetek? "Ferzan é um doce de pessoa. Inteligente, sensível, acolhedor." O repórter conta que conversou com ele por telefone quando saiu O Primeiro Que Disse. e de repente houve um barulho de fundo. Eram Valeria e Scamarcio chegando à casa do diretor, na Turquia, para o réveillon. "Era você ao telefone? Mas veja como a vida é feita de coincidências." Jovens e belos - com a vida pela frente e bafejados pelo sucesso, marido e mulher ocupam-se da morte e de um tema tão controverso quanto a eutanásia.

Mel, Honey, é a protagonista que se ocupa do sofrimento alheio e tenta ajudar pessoas em dificuldades. Surge esse velho que sofre de um mal invisível. "Se você falar com Valeria, ela vai dizer que Honey é um tipo de personagem como não existe no cinema italiano atual. E a morte? Como não se interessar pelo assunto? Fugindo? A morte é importante até para que a gente tenha noção do que é a vida. Quem não sabe disso é ‘stronzo’, pode escrever", e Scamarcio ri.

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