'A Espiã' traz uma trama inteligente de Paul Verhoeven

Cena-chave da trama é quando garota judia deve seduzir oficial alemão por ordem da Resistência

Luiz Carlos Merten, de O Estado de S. Paulo,

08 de janeiro de 2010 | 16h40

Durante boa parte da longa preparação de A Espiã, seu belo filme que estréia nesta sexta-feira, 11, Paul Verhoeven trabalhava com a hipótese de um personagem masculino, um integrante da Resistência holandesa que entrava no QG dos nazistas para executar sua missão. Mas ele não conseguia resolver o problema essencial - justamente como ele entrava e se tornava necessário para o oficial alemão. A alternativa seria fazer do personagem um homossexual, mas Verhoeven não queria o que lhe parecia um retorno de O Quarto Homem, um dos seus clássicos da primeira fase holandesa, em 1983. A personagem feminina terminou por se impor. O filme ganha outra dimensão por isto. Veja também:Trailer de 'A Espiã'   Numa cena-chave de A Espiã, a garota judia encarregada pela Resistência de seduzir o oficial alemão tinge de loiros seus pêlos pubianos para o disfarce ficar completo. A cena é típica do diretor de Instinto Selvagem e Showgirls. A tintura contém acetona e queima as partes íntimas da heroína. Ela se abana e diz que está em chamas. Vai nisso uma metáfora - a heroína de A Espiã tem fogo no sexo. Ela - uma judia - vai se apaixonar pelo oficial alemão. Fazer dele um homem íntegro - apesar de suas contradições - não é a menor das ousadias de Verhoeven, mas ele gosta de surpreender, e até de chocar. Não apenas a garota se apaixona, e o nazista não é o personagem monstruoso que os filmes sobre a 2ª Guerra costumam mostrar, como o verdadeiro mau desta história toda está no lado da Resistência. E, para aumentar ainda mais a provocação, Verhoeven narra sua história em flash-back. No começo, a heroína está em Israel, às vésperas de uma outra guerra, o que talvez indique que sua guerra - do corpo - pode estar recomeçando. Foram quase 20 anos de carreira em Hollywood, iniciada com Conquista Sangrenta, em 1985, depois que Paul Verhoeven adquiriu reputação como diretor de filmes (e temas) fortes na Holanda. Em vez de ser simplesmente cooptado pelo cinemão, ele se constitui num destes casos raros de diretores estrangeiros que conseguiram usar a máquina de Hollywood para expressar seu imaginário em filmes como RoboCop, O Vingador do Futuro, Instinto Selvagem, Tropas Estelares e O Homem Sem Sombra. O problema é que, num determinado momento, Verhoeven ficou sem opções em Hollywood. Os produtores passaram a chamá-lo para fazer somente filmes que misturavam RoboCop - ou O Vingador - com Matrix. Ele queria contar a história de uma protofeminista do século 19. Os produtores se assustaram - em plena era George W. Bush - com o que seria sua abordagem do sexo. Verhoeven preferiu voltar à Holanda. Pensou em fazer uma versão de Rasputim. Em vez disto dirigiu A Espiã, que se chama The Black Book (O Livro Negro) no original, e na seqüência escreveu um livro, lançado no fim do ano passado, sobre o homem Jesus Cristo, analisado em suas tentações, não no plano teológico. Embora tenha se baseado em histórias reais - o oficial alemão existiu, com outro nome; a personagem feminina foi esculpida a partir de duas mulheres que também existiram (e uma delas foi executada pela Resistência) -, Verhoeven fez um filme ‘de cinema’. A ficção mais delirante predomina sobre qualquer possibilidade de abordagem documentária, mesmo quando os fatos são exatos, e a pesquisa formal leva o diretor a reinventar o suspense à Alfred Hitchcock. O filme tem muitas cenas de sexo, porque este é um material que Verhoeven gosta de trabalhar (e a atriz Carice van Houten tem o despudor que este tipo de abordagem exige). Tudo isso é verdade, mas o que importa, na ficção de Verhoeven, é o foco nos crimes da Resistência, por meio de uma mulher - uma heroína - que se transforma continuamente. Em filmes como Instinto Selvagem e Showgirls, Verhoeven já mostrou mulheres que transformam o corpo em instrumento de trabalho. A garota judia de A Espiã não vira uma profissional na cama do alemão porque ela se apaixona, mas o filme expõe o que se pode chamar de um teatro do corpo. Até onde as pessoas podem ir, por princípios ou por amor? Até onde elas podem ir (o falso resistente) para encobrir seus crimes? O Livro Negro seria um título melhor, se tivesse sido mantido. A Espiã trata de áreas sombrias, das pessoas como do cinema. Paul Verhoeven voltou à sua terra para fazer, localmente, seu filme mais hollywoodiano (embora menos baseado em efeitos, ou na ostentação de recursos). A Espiã é um filme diabolicamente crítico e inteligente. Rejeita todo maniqueísmo, é subversivo e não oferece facilidade alguma. O espectador, por exemplo, tem de aceitar que o nazista ‘do bem’ tenha gente que faça o serviço ‘sujo’ por ele. A vingança da heroína é dura de agüentar, mesmo num cinema que já nos acostumou à violência. Verhoeven já era hollywoodiano antes de Hollywood. Na verdade, mais que um filme sobre a realidade, A Espiã é sobre a realidade filtrada pelo cinema. Cahiers du Cinéma comparou-o a Dália Negra, de Brian De Palma, mas isto foi porque Redacted, também de De Palma, ainda não havia sido feito (nem estreado). O conceito de discutir ‘a imagem’ é muito próximo.  A Espiã (Zwartboek, Holanda-Alemanha-Bélgica/2006, 145 min.) - Drama. Dir. Paul Verhoeven. 16 anos. Cotação: Bom

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