"A Era do Gelo" é comédia com novos efeitos visuais

É difícil alguém resistir a A Era do Gelo. Crianças ou adultos encontram no filme de Chris Wedge e do brasileiro Carlos Saldanha um iceberg de motivos para adorar esse desenho animado de visual requintado e história direta. O filme estréia amanhã nos cinemas de São Paulo.Algum implicante pode ver em A Era do Gelo uma espécie de Monstros S/A ou Shrek ambientados na Idade Glacial. Há alguma semelhança superficial no uso das criaturas caricaturais, deformadas, que vivem as três aventuras animadas. Monstros reúne personagens que vivem a piada de serem assustadores, porém que morrem de medo de uma criança; Shrek usa o ogro assustador não como o vilão da história, mas como seu herói. A Era do Gelo também emprega a técnica do avesso: os heróis da narrativa são bichos ferozes ou esquisitos de bom coração; até mesmo o tigre de dente-de-sabre, o pior dos carnívoros do período, consegue se tornar um felino fofinho. O filme não é uma obra-prima da animação, nem um clássico para ficar na lembrança de todos como um Bambi, nem sequer como um Toy Story. Mas certamente é uma delícia de ver e provoca muito mais risadas do que boa parte das comédias recentes que passaram pelos cinemas. Mesmo com um ponto de partida convencional e que convida à pieguice: um mamute, um tigre de dente-de-sabre e uma preguiça se juntam para salvar um bebezinho e devolvê-lo aos pais. O filme acontece numa grande era glacial, quando os bichos se reúnem todos numa migração em massa para o sul, a fim de fugir do frio que vem com o avanço da calota polar. Mais ou menos como os americanos de hoje fazem, viajando nos meses de inverno para a Flórida. A abertura do filme é um primor e foi toda colocada no primeiro trailer, com grande sucesso. Um bicho esquisito chamado Scrat (misto de esquilo e rato) dedica-se de corpo e alma a manter uma noz grandona que achou naquele gelo todo. Para protegê-la de eventuais predadores, ele a quer enterrar no gelo e provoca uma imensa avalanche, da qual ele faz das tripas coração para escapar. Fazendo barulhos estranhíssimos (informa-se que produzidos pelo próprio diretor Wedge), Scrat transforma a noz numa espécie de jet-ski/skate que voa pelo gelo até ele se projetar num abismo. Chegando ao fundo do buracão, quando pensa estar em paz com sua noz, ele é esmagado repetidamente por boa parte dos bichos, todos maiores que ele, que fazem a viagem para o sul e o sol. Na comitiva rumo ao bronze e aos trópicos, está o mamute Manfred. Logo travamos conhecimento com Sid, a preguiça, que é um bicho com a sutileza e a esperteza de um personagem que poderia ser encarnado por Jim Carrey num dia de Eddie Murrphy ou vice-versa. Também tem seus momentos insuportáveis como seus homólogos humanos, mas o ritmo do filme é tão ágil e leve que neutraliza isso. Sid e Manfred acham o menininho à beira do rio onde a mãe dele desaparece. Resolvem protegê-lo e devolvê-lo ao bando de humanos que foi atacado por tigres. Um deles, Diego, junta-se ao grupo para levá-lo a uma emboscada, pois o tigre chefe quer devorar o bebê. A viagem leva-os até um lugar chamado de Monte Quebrado, após passarem por mil perigos e muita briga. A preguiça desmiolada é meio o saco de pancadas de todos, mas ela também é desbocada e vive provocando o tigre e o mamute. O bebezinho cresce, aprende a andar e numa das emergências, o tigre é salvo pela união de todos. Aí se desenvolve a moral do filme, a de que a solidadriedade e o altruísmo são positivos. Isso é expresso na frase: "É o que se faz num bando", dita por Manfred. A mensagem é aceita por todos, inclusive pelo tigre que entra no espírito da coisa e chega a enfrentar os outros da sua espécie. O fato de tigres não andarem em bandos é um detalhe que não vem ao caso. Um crítico americano disse que esta mensagem de um mundo mais bondoso e gentil estava mais pra new age do que para ice age. Mas críticos tendem a ser cínicos e mal-humorados, e detestam quando bons sentimentos são exaltados, mesmo sem exageros. Tecnicamente, A Era do Gelo tem muitos pontos altos, reunindo softwares especialmente desenvolvidos pela Blue Sky, o estudio que reuniu Wedge e Saldanha, proporcionando uma imagem especialmente luminosa que faz ganhar a nitidez de detalhes como o pêlo dos bichos e as paisagens dos fundos. Mas o clima de diversão geral, em que a aventura é um pretexto para rolar pelo gelo, cair das árvores ou jogar bolas de neve nos outros. Ver A Era do Gelo é isso.

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