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A elegante decadência dos vampiros de Jim Jarmusch agora em DVD

Diretor impregna ‘Amantes Eternos’ de um romantismo cool como o cinéfilo nunca viu em histórias do gênero

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2014 | 07h00

Existem críticos capazes de jurar que Jim Jarmusch (re)inventou o cinema independente dos EUA com seus filmes Stranger Than Paradise e Daunbailó, no começo dos anos 1980. Interessante, ele nunca deixou de ser, com a narrativa episódica de Mystery Train e as diferentes versões de Coffee and Cigarettes. Em Memphis ou algum lugar da Califórnia, bastava a Jarmusch colocar seus personagens ao redor de uma mesa, tomando café e fumando, para fazer reflexões originais sobre o próprio cinema. O problema é que Jarmusch começou a repercutir cada vez menos. O que fazer? Desistir ou reinventar-se?

Ele optou pela segunda via. Começou a fazer releitura de gêneros. Western (Dead Men), policial (Ghost Dog – The Way of the Samurai), melodrama (Broken Flowers). Jarmusch continuou a frequentar o circuito dos festivais, a receber elogios – mitigados – dos críticos. No ano passado, em Cannes, ele admitiu que fez Only Lovers Left Alive porque estava chegando ao fundo do poço e os produtores lhe acenaram com um filme potencialmente de mercado. Pegando carona em Bella e Edward, Jarmusch fez o seu Crepúsculo. Amantes Eternos – título brasileiro – é o tributo do diretor ao vampirismo.

O filme está saindo em DVD para rental. Para venda, só em janeiro. Vampiros possuem longa tradição no cinema, desde o terror dos anos 1930 aos Dráculas (no plural) dos 50 e aos jovens de Crepúsculo, já nos anos 2000. Só que os vampiros de Jarmusch não se assemelham, a nenhum desses. Os vampiros do diretor parecem perdidos no tempo. Vivem numa Tânger romântica, vestem roupas estilizadas, são roqueiros e consomem sangue... esterilizado. Jarmusch conta a história do casal primevo. Não por acaso, chamam-se Adão e Eva, como na Bíblia.

Adão é um roqueiro underground que vive recluso, e isso só aumenta o culto dos fãs. Ele reencontra sua Eva. Ainda há fogo sob as cinzas, mas o casal é cool. Ambos têm perfeita consciência de quem e do que são. Entra um terceiro vértice para formar o triângulo e é aqui que o equilíbrio se rompe. A irmã de Eva vive segundo regras próprias, e selvagens. Quando a civilidade é rompida, é todo um mundo que ameaça se desintegrar.

Amantes Eternos é um típico Jim Jarmusch porque, em, momento algum, o diretor se preocupa em se ajustar às normas do cinema de gênero. O filme tem violência, algumas peripécias, mas nada impactante. Algumas ideias são inesperadas – como nunca ninguém pensou nisso antes? As personagens chupam picolés de sangue. E justamente o sangue, que as une, lança irmã contra irmã, as desune. Por mais civilizados que sejam, por mais blasés, vampiros não escapam a seu destino. Mais que amantes eternos, são eternos malditos. Com ótimos atores como Tilda Swinton e Tom Hiddleton, Jarmusch fez um filme elegante na sua decadência. Merece revisão.

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