A dor que sai da tela para salvar a vida

Que angústia consome Mrs. Dalloway, a protagonista do livro de Virginia Woolf que é considerado uma das obras-faróis do romance moderno? Você não precisa ter lido Mrs. Dalloway, e nem mesmo o livro escrito por Michael Cunningham a partir do de Virginia, para apreciar as qualidades artísticas e humanas do filme que Stephen Daldry adaptou de As Horas. Essa angústia se distribui por três mulheres, em diferentes épocas. Começa com a própria Virginia, nos anos 1920, quando escreve Mrs. Dalloway e prossegue até sua morte, por suicídio, 20 anos mais tarde. A outra mulher é uma dona de casa que lê Mrs. Dalloway nos anos 1950, percebe o vazio de sua vida e pensa em matar o marido, em se matar. E a terceira é uma mulher que vive na Nova York atual e se transforma no espelho de Mrs. Dalloway ao planejar como será a festa de despedida de seu antigo amante e eterno amigo, que está morrendo de aids. Cada uma dessas personagens carrega e ilustra o enigma de Mrs. Dalloway. É um filme tão bem realizado que seu começo incomoda. Todas aquelas associações de imagens, para fazer o link entre as diferentes épocas, parecem artificiais. Mas logo fica claro que algo está se passando na tela. Stephen Daldry, homem de teatro e, agora, de cinema - após Billy Elliott e As Horas -, é um grande diretor de atores. O mistério de As Horas passa pelo elenco excepcional que ele conseguiu reunir. Cada atriz tem seu grande momento. O de Nicole Kidman/Virginia é o diálogo com o marido, quando ela antecipa a opção pelo suicídio. O de Julianne Moore/Laura é o olhar que lança ao filho quando parte para cometer seu ato radical. E o de Meryl Streep/Clarissa é a crispação nervosa quando encontra Richard na janela, pronto para seu vôo mortal. Há tanta emoção no trabalho dessas atrizes - a palavra dolorida e consciente de Virginia, os olhares dolorosos e angustiados de Laura e Clarissa - que aí você começa a perceber o partido de Daldry. É um filme sobre mulheres e também sobre os compromissos que as pessoas aceitam para sobreviver. Daí essa forma particular de narração, a insistência em detalhes que parecem falsos, mas iluminam uma discussão sobre arte e vida. A idéia do filme é bergmaniana: a vida vale a pena, nem que seja por um momento, como em Gritos e Sussurros. Gostar ou não gostar é irrelevante. As Horas propõe, mais que um prazer estético, uma experiência. A música de Philip Glass, excessiva, ajuda a compor o quadro da obsessão que consome essas mulheres. São todas grandes atrizes, mas a melhor interpretação é de um homem que quase não fala. Stephen Dillane, como Leonard Woolf, fornece uma chave muito interessante para quem quiser penetrar no mistério e na sedução desse belo filme.

Agencia Estado,

28 de fevereiro de 2003 | 12h47

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