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A dignidade da ação política de Mandela é expressa no cinema pela atuação de Morgan Freeman

Até a expressão corporal do ator é semelhante à do ex-presidente

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 de dezembro de 2013 | 20h29

Morgan Freeman é a cara de Mandela. Quem duvidar, veja Invictus (2009), no qual o ator norte-americano interpreta o líder sul-africano em uma das passagens fundamentais da sua atuação como presidente.

Trata-se da hábil manobra política que consistiu em transformar a seleção de rúgbi do país, tida como nicho de racistas, em símbolo da união nacional, grande ambição de Mandela desde quando saiu da prisão, em 1990.

Acontece que, em 1995, jogava-se na África do Sul o Campeonato Mundial de Rúgbi. O time africano entrava na competição como dono da casa, mas parecia não ter qualquer possibilidade de vitória. Nelson Mandela conversa com o capitão do time, vivido por Matt Damon, e o convence de que a vitória é fundamental para o país àquela altura do campeonato.

Há cenas que definem a mão de um diretor de peso, Clint Eastwood, no caso. Logo no início, vemos a comitiva de Mandela libertado depois de 27 anos de cárcere na prisão de Robben. Os automóveis passam por um campo onde um time de rúgbi é treinado. O técnico fala para um dos garotos: “Guarde bem este dia. Hoje a África do Sul começou a sua ida para a ruína”. Uma simples cena define o ânimo de parte do país.

Noutra, vemos Mandela interferir numa reunião que pretende mudar cores do uniforme, nome e hino do time nacional, identificado com os africâneres. Mandela vê nisso um erro. Entende que o momento é o de preservar a simbologia do inimigo e transformá-la em signo de união nacional. Assimilar adversários ferrenhos faz parte da política e aconteceu até mesmo na Revolução Russa. Outra sequência que não se esquece é a visita de Damon à cela de Mandela, conservada como relíquia nacional. A face silenciosa do capitão do time expressa seu sentimento profundo de compreensão daquele homem que lhe fora pedir a vitória.

A direção de Clint é sóbria, precisa, com pouca concessão a sentimentalismos. Mas o que sobressai é mesmo a interpretação de Morgan Freeman, que consegue se parecer com Madiba até mesmo na forma de andar. Isso os grandes atores percebem quando precisam interpretar um personagem real e de alta visibilidade como Mandela. Não basta se parecer no rosto, porque disso a maquiagem em geral se incumbe. É preciso assemelhar-se também na expressão corporal. Nós conhecemos o modo de falar, de mexer a cabeça, de andar de um pessoa íntima. Inconscientemente, é o que nos fornece o signo de reconhecimento à distância. E Freeman captou muito bem esses sinais corporais de Mandela.

Em especial, essa aura de dignidade que foi a marca maior de Mandela. Revolucionário na juventude, Madiba meditou sobre seu país durante os 27 anos de cárcere e concluiu que precisava de uma solução negociada para fazer a transição. Seu plano foi um sucesso e o esporte, no caso o rúgbi, desempenhou função importante. Mandela conduziu o jogo como verdadeiro estadista, e seu intérprete, Morgan Freeman, compreendeu a essência dessa ação política para melhor interpretá-lo.

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