Kaplan Film
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A difícil busca da ética entre as pequenas trapaças do cotidiano

Na história de um agricultor turco, ‘O Compromisso de Hasan’ expõe o trato dos valores na rotina de um cidadão comum

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 05h00

O fazendeiro Hasan (Umut Karadag) tem um problema. Uma grande empresa de eletricidade quer passar a linha de transmissão por suas terras, em prejuízo da plantação de tomates. Ele pergunta ao engenheiro por que eles não desviam a linha uns poucos metros de modo a atravessar o campo infértil de um vizinho. 

Eis o começo do filme turco O Compromisso de Hasan, de Semih Kaplanoglu, destaque da Mostra de Cinema de São Paulo. Como outros de seu país, ele põe ênfase no visual, explorando os planos abertos, como para contrastar a dimensão humana diante da grandiosidade da paisagem silenciosa. 

Hasan tem uma série de tarefas práticas a cumprir, como qualquer agricultor. Além do estorvo das linhas de transmissão, há outros problemas, pequenos ou grandes. O valor dos tomates caiu e ele não sabe se deve negociá-los. Os europeus não aceitam comprar produtos com agrotóxicos e os compradores se aproveitam para aviltar o preço. Além disso, há o gato de estimação que sumiu e perturba a paz da sua mulher, Emine (Filiz Bozok). 

Ele herdou do pai a propriedade e pretende expandi-la. Viria a calhar se o vizinho resolvesse vender suas terras. Meio por acaso, Hasan descobre que esse conhecido passa por dificuldades financeiras. Por isso, talvez, esteja disposto a vender por um valor menor. 

No meio de tudo, surge uma boa notícia: Hasan e a esposa foram sorteados para integrar um grupo de peregrinação a Meca. O preço é salgado, mas é oportunidade única. Bons muçulmanos devem ir, pelo menos uma vez na vida, à cidade sagrada. 

Bênção

Pelo costume, quem vai a Meca deve pedir a bênção e o perdão de quem porventura tenha prejudicado. Precisa colocar-se em estado de pureza para que a própria peregrinação seja abençoada. Desse modo, tanto Hasan como Emine devem fazer um rigoroso exame de consciência, recordar os que foram por eles ofendidos ou prejudicados e sair atrás deles para pedir perdão. 

Esse é o traço mais marcante da obra - introduz uma questão ética radical num meio em que pequenas trapaças e ofensas fazem parte do cotidiano. Assim, pode parecer “normal” despedir um empregado injustamente acusado, ou levar a melhor numa herança ou usar uma informação privilegiada para comprar um bem por um preço favorável. Tudo se relativiza, porque, por uma moral flácida, faz parte do dia a dia da competição pela vida, da sociedade que privilegia os mais fortes e os mais espertos. Confrontados com a ética rigorosa, tais “deslizes” tornam-se faltas graves que devem ser reparadas. 

Colocada essa lente de aumento, põe-se em evidência toda a rede de favores, trapaças e injustiças que compõem uma vida em sociedade. No cotidiano, não reparamos na estrutura intrincada desse tecido. Faz parte da “normalidade” e não o enxergamos. Sob o regime da exigência ética, aparece em sua real dimensão. 

As ofensas permanecem vivas na memória de quem as sofreu, mesmo que o ofensor tenha esquecido. Mas - e este é o dilema adicional e definitivo da trama - como pedir perdão a quem já não se recorda da ofensa recebida?

Esse fundo filosófico se expõe, de maneira plena, no regime de imagens próprio do cinema. As panorâmicas insistem na dimensão menor do ser humano diante de um universo que o ultrapassa. 

A consciência culpada de Hasan desdobra-se nas inquietações da vigília e nos pesadelos que o atormentam à noite. Tudo ganha espessura e carne pela interpretação serena e ao mesmo tempo intensa desse grande ator que é Umut Karadag

Também ganha vida e complexidade uma cultura em geral vista por nós pelo espelho deformante dos clichês, dos preconceitos e da ignorância. Esse é um bônus civilizatório desse grande filme. 

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