A despedida da inesquecível Joan Fontaine

Atriz foi heroína de Alfred Hitchcock e Max Ophuls, ganhou o Oscar e foi sempre a rival da irmã, Olivia De Havilland

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2013 | 19h27

No sábado morreu o grande Peter O’Toole, levando para o túmulo um triste recorde – o astro de Lawrence da Arábia, o clássico de David Lean, foi o ator mais vezes indicado para o Oscar (oito) sem nunca haver recebido o prêmio da Academia. Aliás, recebeu, mas um prêmio de carreira, pelo conjunto da obra, em 2003. Morreu nno domingo Joan Fontaine, uma estrela dos anos 1940 e 50. Joan ganhou o Oscar de cara. Havia estreado em 1937, fez filmes com diretores como George Stevens (Gunga Din) e George Cukor (As Mulheres) e, então, em 1941, Alfred Hitchcock, estreando no cinema norte-americano, precisava de uma atriz loira e delicada. Escolheu Joan.

Fizeram dois filmes e o primeiro, Rebecca, a Mulher Inesquecível, foi contemplado com o Oscar de melhor de 1940 (mas Hitchcock não foi o melhor diretor). Pelo segundo, Suspeita, Joan foi a melhor atriz. Houve choro e ranger de dentes na mansão dos Havilland, porque Fontaine era um pseudônimo. Joan era irmã de Olivia De Havilland, que se tornara estrela antes que ela, graças à dupla com Errol Flynn e a papéis como a Melanie do cultuado ...E o Vento Levou.

Sempre houve rivalidade entre as irmãs. O Oscar, digamos, prematuro de Joan somente piorou as coisas. Olivia dedicou-se com afinco a também ter sua estatueta – e recebeu duas consecutivas, como melhor atriz de 1948 e 49, por papéis intensamente dramáticos em Só Resta uma Lágrima e Tarde Demais. Joan, enquanto isso, engatava um filme após o outro. Consolidou a personagem da loira fria em filmes noir. Ninguém diria que ela era uma grande atriz, mas tinha classe. Filmou com Richard Stevenson, Mitchell Leisen, Sam Wood, Nicholas Ray, Fritz Lang. Foi Jane Eyre, com Orson Welles na pele de Rochester. Nasceu para ser má (Born To Be Bad), como se chamava seu filme com Ray – no Brasil batizado como Alma Sem Pudor. E, com Lang, Beyond a Reasonable Doubt virou Suplício de Uma Alma, por aqui.

Malvada, pérfida. Em 1948, Joan Fontaine mudou o tom e fez seu talvez maior papel – em A Carta de Uma Desconhecida. Um europeu, Max Ophuls, filmando o romance de outro europeu, Stefan Zweig, fez dela o suprassumo da heroína romântica, que se sacrifica por amor. Joan, sempre tão gélida, nunca teve a emoção tão à flor da pele. E olhem o paradoxo. Fria, era sexy, um vulcão prestes a explodir (como o mestre do suspense gostava). Romântica, era a própria sublimação do sexo – embora o pianista Louis Jourdan e ela tenham gerado uma criança na obra-prima de Ophuls.

Joan abandonou o cinema em meados dos anos 1960. Fez teatro e um pouco de TV. E investiu dinheiro em petróleo, imóveis, frutas cítricas e gado. Ficou tão rica que foi preciso criar um conglomerado para gerenciar seus bens, do qual ela era a diretora-presidente. Joan intitulou sua autobiografia Not a Bed of Roses, Não Uma Cama de Rosas, querendo indicar com isso que sua trajetória foi difícil. Talvez a rivalidade com a irmã tenha sido difícil, mas nasceram em berço de outro. Filhas de diplomata, viram a luz, as duas, em Tóquio, Joan em 1917. Tinha 96 anos e morreu de causas naturais.

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