A derrota da barbárie em "O Pianista"

O filme que estréia hoje em São Paulo vem no vento de uma penca de prêmios: Palma de Ouro em Cannes, sete César (o Oscar francês), troféus da Academia Britânica (Bafta) e Goya (Espanha). Está indicado em sete categorias do Oscar e todo esse retrospecto pode se traduzir numa consagração da Academia. O Pianista é a volta por cima de Roman Polanski, diretor genial que havia muito não acertava na mosca como desta vez. Há um traço autobiográfico dando vida ao projeto. Como seu personagem principal Wladyslaw Szpilman (Adrien Brody), Polanski é um sobrevivente do gueto de Varsóvia. Sentiu na pele a perseguição anti-semita, mas, claro, nem de longe sofreu o mesmo que o personagem. Szpilman existiu de verdade. Era pianista, tocava na rádio e compunha. Como tantos outros, teve a existência virada de cabeça para baixo com a ocupação nazista. Mas pelo menos escapou com vida. Sobrevivente, escreveu o livro de memórias que está sendo lançado aqui pela Record. Talvez a história de Szpilman não seja tão diferente de outras, já tantas vezes contada em filmes. É possível também que Polanski não seja um inovador na maneira de contar essa tragédia coletiva por meio de um caso individual. Mas, atenção: há mudanças de tom, de registro, de entonação - que fazem de O Pianista um caso particular na vasta filmografia consagrada ao Holocausto. Os diferenciais, a meu ver, são a atuação de Brody, a direção despojada de Polanski, e a visão mais complexa do gueto e do inimigo. Boa parte do filme é consumido naquilo que é inevitável. Há uma vida normal, pessoas comuns, honestas, criativas. E essa vida é destroçada pela prepotência bélica de um país. Pior ainda, no caso, pois guiada também por um sentimento racista. Mas tudo isso se sabe. E, se não pode evitar a repetição, Polanski busca, com seu ator, um diferencial no tratamento das emoções. Não basta dizer que a atuação de Brody é contida. Vai um pouco além. Como se ele lutasse contra qualquer exteriorização mais manifesta dos sentimentos, justamente para que a emoção latente pudesse aflorar - e tocar o espectador. Nota: só grandes atores conseguem isso. Aliás, toda a concepção do filme é baseada nesse conceito. Como se Polanski soubesse que estava tratando um tema batido, uma experiência dolorosa, mas que para fazer jus a essa dor não poderia escorregar para o drama fácil, por um lado. Mas, por outro, também não poderia assumir o ponto de vista de um entomologista, e assistir a tudo de fora, como se não tivesse nada a ver com o assunto. Ou seja, o filme, em seu conjunto (e não apenas o ator), deve caminhar no fio da navalha, entre o calor e o frio, entre a dor e o distanciamento. Para que a emoção genuína seja preservada. Nota: só grandes diretores conseguem isso. Finalmente, Polanski resolveu encarar aquela situação terminal em toda a sua amplitude. Por exemplo, não esconde que o gueto foi guardado por uma polícia judaica, que colaborava com os alemães e às vezes era até mais brutal do que o próprio invasor. Essa complexidade de reações já havia sido tratado em livros memoráveis como Os Afogados e os Sobreviventes, de Primo Levi, no qual ele relata sua experiência em Auschwitz. No cinema é mais difícil. Há também a cena potencialmente polêmica em que um oficial alemão descobre Szpilman escondido no gueto e, em vez de denunciá-lo, o protege. O fato é que o alemão é também um personagem real, Wilm Hosenfeld, que depois da guerra desapareceu num campo de prisioneiros russo. Essa opção pelo complexo não significa confundir alhos com bugalhos, assassinos com vítimas. Significa apenas constatar que, sob uma situação cruel (criada apenas e tão somente por um dos lados), afloram os melhores, mas também os piores sentimentos das pessoas - inclusive dos oprimidos. Em seu livro, Levi fala de uma "zona cinzenta" composta por indivíduos que colaboravam com o opressor a troco de pequenos privilégios, ou simplesmente porque viam naquela situação atípica a oportunidade de exercer algum poder, essa antiga paixão humana. Num meio sórdido o mal prevalece. Mas também não é inevitável. E essa talvez seja a impressão final e mais forte de O Pianista. Há um momento delicado (o espectador verá) em que Szpilman vê-se a um passo da morte. Reage com aquilo que tem de melhor, sua música. Naquele momento - uma seqüência em que o filme atinge o sublime - a arte vence a barbárie. Uma vitória precária, que precisa ser refeita a cada geração, como sabemos todos.

Agencia Estado,

07 de março de 2003 | 12h54

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